A ilha das onze - 2ª parte



Este texto é a continuação de A ilha das onze (sugiro que leia a 1ª parte da história antes de continuar).

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Passaram alguns dias, já de barba irritantemente farta, mantinha-se ocupado entre construir um abrigo com os ramos e folhagens que tinha à mão, apanhar umas bagas desconhecidas mas que arriscou provar (eram saborosas e não lhe fizeram mal), deslocava-se diariamente à cascata de água doce e já tinha arriscado fazer umas armadilhas com cordas e uns ramos (truques que se lembrava de brincadeiras de miúdos), mas até ao momento nenhum animal tinha caído numa delas, felizmente a pesca andava-lhe a correr bem.

Hoje decidiu explorar uma zona da ilha que ainda não conhecia, recordava-se de ter visto do ponto mais alto um local sem árvores, pareceu-lhe um lago com uma pequena elevação rochosa numa das margens, talvez o curso de água doce vá ali ter, ou que tenha mais condições para abrigo. Meteu-se a caminho.

Não demorou muito tempo a chegar ao destino que tinha traçado, não fosse a desgraça de estar sozinho a lutar pela sobrevivência e aquele pedaço da ilha (já de si lindíssima) tinha uma beleza arrebatadora!

Começou por provar a água, era salobra, de facto o curso de água terminava naquele grande lago, mas como o mar também tinha acesso por uma pequena entrada entre duas rochas, a água estava misturada.

Olhou atentamente em todas as direcções e deu conta que do outro do lago existia o que lhe pareceu uma cabana! Com o coração disparado apressou-se a dar a volta ao lago (o que ainda lhe demorou cerca de 25 minutos), chegando perto, teve a certeza que era uma construção já velha, mas sem qualquer dúvida, tinha sido feita pelo homem!

Embora aparentasse estar ao abandono, antes de arriscar entrar decidiu gritar – ESTÁ AÍ ALGUÉM? – mas como resposta recebeu simplesmente silêncio.

A cabana tinha sido construída com tábuas do que parecia ter pertencido a um barco de grande porte, tanto que as janelas não eram janelas propriamente ditas, eram vigias e quem tenha decidido colocar a cabana naquele local tinha sido muito inteligente, pois aproveitou uma saliência natural de uma rocha para fazer de parede das traseiras e telhado também.

Lentamente percorreu o espaço ao redor, esta aparentava já não ser habitada há muito tempo, no entanto pelo estado exterior estava em melhor condições do que a sua própria cabana, até porque foi construída com materiais mais nobres, espreitou por uma das vigias, estava muito suja e lá dentro o ambiente era demasiado escuro para ver na perfeição, embora tenha vislumbrado uma mesa.

Dirigiu-se à porta, a única segurança que esta tinha era um ferrolho, abriu-o e empurrou-a com força pois estava um pouco empenada, entrou e esperou um momento no interior para se habituar ao ambiente mais escuro.

O pó e as teias de aranha imperavam no espaço onde se encontrava, observou que no seu lado direito existia uma cama, no centro uma mesa com dois bancos, ao fundo uma estante e à esquerda uma pequena escrivaninha, tudo isto eram sem dúvida mobílias de um navio.

Dirigiu-se à estante, abriu as duas portas e lá dentro encontrou louça, tachos e uma frigideira, um pequeno luxo na situação em que se encontrava.

De seguida foi à escrivaninha, abriu o tampo e encontrou 3 lápis: um muito gasto, outro aparentava ter sido usado algumas vezes e um novo, mas o que lhe chamou verdadeiramente a atenção foram dois cadernos de capa grossa, o primeiro tinha como título Log Book* e ao abrir o livro percebeu que estaria escrito numa língua que desconhecia, não percebia nada visto que só sabia português e ainda assim mal.

Já o segundo livro era uma Bíblia, mas continuava sem entender o que estava escrito – será isto Latim? – pensou. Voltou a pegar no primeiro livro desfolhando-o um pouco ao acaso, não entendia nada, mas percebia que era um diário, cada texto iniciava com uma data e enquanto desfolhava reparou também num desenho, era a ilha onde se encontrava, pelos vistos alguém teria feito o desenho da ilha como se fosse um mapa.

Olhou mais atentamente e verificou que um pouco a norte do local onde se encontrava estava uma cruz desenhada no mapa – estranho, tenho de lá ir em breve ver o que se trata – avançou mais umas quantas páginas, e reparou que existiam pelo menos três tipos de letra diferentes, aparentemente várias pessoas tinham escrito naquele livro.


Como tudo estava escrito numa língua que não conhecia, foi desfolhando, até que lhe apareceu uma página onde lá no meio leu de relance "(...) aqui são sempre 11h(...) " – esta página está em português! – pensou, e começou a ler avidamente do início:

Não sei se isto vai ser lido por alguma alma, mas deixo a minha desgraça nestas linhas.

Eu e o meu amigo Alberto Silva viemos parar a esta ilha numa manhã de nevoeiro, pelas minhas contas estarei aqui há 7 meses.

Não sei onde estou, mas acredito que este pedaço de terra é na realidade a porta do inferno, aqui faz sempre calor, aqui são sempre 11h, e de onze em onze dias acontece o terror.

Nesse dia diabólico tudo muda, durante a noite cai um nevoeiro cerrado, tudo se mantém assim durante as primeiras horas da manhã, sem vento, o mar mais calmo que alguma vez observei, até que a ilha é atingida por uma tempestade violenta com ventos capazes de levantar um homem do chão por vários metros.

O único local seguro é aqui à beira do lago, embora violento o vento aqui permite sobreviver.

Depois tudo acalma, embora o nevoeiro se mantenha durante umas horas.

Quando chegámos, conhecemos o Bill, estrangeiro simpático e companheiro de desgraça, era Inglês, mas tinha estado no Brasil vários anos, pelo que nos conseguimos entender.

Contou-nos que estava aqui há anos, fazia parte da tripulação de um navio que deu à costa neste inferno num dia de nevoeiro cerrado, eram oito, mas foram perdendo a vida ao longo do tempo, todos afectados por uma doença misteriosa, explica que dá febres altas, delírios e morrem ao fim de alguns dias.

Como nós também chegámos num dia de nevoeiro, acreditamos que sempre que existe nevoeiro em algum local marítimo, quem lá passa pode vir aqui parar inexplicavelmente. 

Há uns dias perdi os dois, o Bill e o meu amigo Alberto, tiveram a febre com delírios durante 4 dias, acabando por falecer.

Enterrei-os no cemitério a norte e vou tentar sair desta ilha, embarcando no meu bote numa manhã de nevoeiro, se cá vim ter no nevoeiro, pode ser que consiga sair.

Que a graça de Deus me acompanhe e que abençoe quem porventura ler isto.
Joaquim Ramalho
Não podia acreditar! Era o Ti Jaquim... e agora já sabia o que tinha acontecido ao seu pai!

Enquanto uma lágrima lhe corria pela face, fez contas aos dias que estava na ilha  faltavam dois para o nevoeiro limpou a lágrima, decidiu por mãos à obra e mudar-se para este abrigo à beira do lago.

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Tinha chegado a hora, era madrugada do trigésimo terceiro dia naquela ilha misteriosa, confirmava-se o que estava escrito pelo Ti Jaquim, de 11 em 11 dias ficava um nevoeiro medonho, uma tempestade terrível e mais nevoeiro, já tinha passado por duas, decidiu agir, preferia perder a vida a tentar sair daquele inferno solitário, do que ficar ali simplesmente à espera de ser infectado com a tal febre mortal.

Passou os últimos dias a preparar tudo ao pormenor:

Como crente que era, foi rezar junto à sepultura do seu pai, não sabia exactamente qual era, mas orou por todos, escreveu umas linhas no diário a contar o que lhe sucedeu e abasteceu a sua embarcação com imensas bagas e água, suficientes para alguns dias.


Acabara nesse momento de grelhar peixe que iria consumir nas próximas horas, acondicionou-o o melhor que pôde e embora não soubesse latim trouxe a Bíblia consigo, mais por uma questão de superstição, mas aconchegava-o.

Estava um nevoeiro cerrado, mas faltavam poucas horas para amanhecer o dia, levou a mão direita ao chão e agarrou num punhado de areia que deixou fugir por entre os dedos propositadamente, de olhar perdido, com medo, mas resoluto, respirou fundo e empurrou a pequena embarcação em direcção ao mar, deixando-se deslizar uns metros naquela água calmíssima e sem rebentação.

Não teria combustível para muito tempo, mas ligou o motor e adentrou pelo nevoeiro, rumo ao desconhecido.

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Tem aqui as suas coisas – disse a enfermeira sorridente ao mesmo tempo que lhe passava um saco para a mão – o médico deu-lhe alta, estão aí roupas que o seu amigo lhe trouxe e está lá fora à espera para o levar para casa.

Agradeceu e espreitou para dentro do saco, o Zé Manel (amigo de longa data), tinha-lhe preparado uma muda de roupa, a sua carteira e também o relógio, sorriu e começou a vestir-se.

Não tinha grande consciência do que lhe tinha acontecido, explicaram-lhe que por pura sorte foi encontrado à deriva na sua embarcação, tudo indicava que teria dado uma queda e batido com a cabeça, estava inconsciente e foi transportado para o hospital mais próximo.


Esteve alguns dias em coma, até que acordou bastante confuso e a dizer coisas sem nexo, no entanto foi recuperando e depois de exames exaustivos, tudo parecia estar bem.

Já pronto, colocou o relógio no pulso e olhou as horas – 10h05 – veio-lhe à cabeça as recordações fabricadas pelo cérebro durante o coma, a ilha, o calor, o facto de serem sempre 11h, a cabana, o caderno com a história do pai e o nevoeiro com tempestades cíclicas de 11 em 11 dias – mas que raio – pensou – é de doidos!


Despediu-se da equipa de saúde, agradecendo os cuidados prestados e saiu, lá fora recebeu o abraço do amigo que o tinha vindo visitar religiosamente todos os dias, e seguiram para o automóvel deste que estava no parque de estacionamento.

Passou a maioria dos minutos da viagem calado, estava perdido nos pensamentos das suas memórias falsas, muitas delas tinha guardado só para si, pois após revelar algumas coisas percebeu a preocupação da equipa médica.

Da equipa pluridisciplinar, o psiquiatra tinha-lhe explicado que durante um episódio de coma, por vezes (embora raramente) ocorre, mas caraças, pareciam-lhe tão reais!

Foi interrompido pelo seu amigo – chegámos pá – olhou pela janela e percebeu que estavam estacionados à porta de sua casa – precisas de alguma coisa? – perguntou o Zé Manel.

– Não, estou bem, a sério, já nem tenho a dor na cabeça – respondeu ao mesmo tempo que apontou para o local da nuca onde teria batido com força.

– Olha – disse-lhe o amigo – não chegámos a encontrar as tuas chaves de casa, tens aqui as de reserva que me entregaste há uns anos, se quiseres torna a fazer uma cópia para mim, já se viu que pode dar jeito – e sorriu enquanto lhe entregava as chaves – a tua casa está em ordem, vim cá há poucos dias buscar roupa para quando tivesses alta, e coloquei em cima da mesa da cozinha umas tralhas que tinhas no barco.

Agradeceu, apertou-lhe a mão e saiu do carro em direcção a casa, entrou, e ainda acenou ao Zé Manel antes de fechar a porta, colocando de seguida as chaves numa mesinha junto à porta.

Dirigiu-se à cozinha, mas pelo caminho deteve-se à entrada da sala de jantar, olhou para uma moldura pendurada na parede em frente, era de uma foto dos seus pais muito antiga, observou durante uns segundos a figura imponente do seu pai, respirou fundo e encolheu os ombros confuso, decidiu continuar para a cozinha, era melhor verificar o que tinha na arca, possivelmente teria de fazer compras.

Ao entrar olhou de soslaio para cima da mesa, lá estava as tralhas que o Zé Manel tinha referido, a sua lancheira, duas garrafas onde costumava colocar vinho, o garrafão para a água e por detrás da lancheira...

Gelou!

Dirigiu-se para a mesa a tremer, olhou com atenção e não existiam dúvidas... era a Bíblia, a Bíblia da cabana!

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O meu especial agradecimento à Liliana Rainha, pela excelente ideia que teve durante um brainstorm, a qual me levou a chegar a este final para a história.


*Log Book = Diário de Bordo

Este texto não foi escrito de acordo com o novo acordo ortográfico.

22 comentários:

  1. Adorei! Parecia estar a viver tudo o que lia. :)

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    1. Muito obrigado Ana!
      Isso de "parecia que estava a viver tudo o que lia" é muito importante para mim... é um dos objectivos que tenho e nem sempre consigo :)

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  2. F-A-N-T-Á-S-T-I-C-O
    Francisco, está de parabéns!
    Desde a primeira parte que fiquei presa ao texto! Muito bom!
    Cada pormenor, cada descrição, cada sensação...tudo excelente!
    Isto pede uma continuação para desvendar o mistério da Ilha!
    E Francisco..."pelo amor de Deus" escreva um livro!

    http://theincompletediary.blogspot.pt

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    1. Obrigado Helena!

      Antes de mais, trata-me por tu sff ;)

      Fico mesmo contente por teres gostado... já quanto a isso do livro, e quero muito (mesmo), mas até ao momento ainda não surgiram as condições... mas quem sabe um dia destes, não é?

      ;)

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    2. Vê senhor Francisco?! Já tem uma pessoa a encomendar o livro eheh

      (o senhor foi só para chatear ahah)

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    3. Estou a ver isso :D

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  3. Cum caramba que me ia dar uma coisa enquanto lia as duas partes! Está super bem descrito, tal como disseram, quem lê fica mesmo dentro da história, vive-a e sofre com a personagem! Espero MESMO que consigas escrever um livro e gostava tanto tanto de ver esta história mais desenvolvida. Isto dava um livro espetacular. Muito obrigada por esta história, não foi perda de tempo nenhuma :)


    https://healthyfoodandme.wordpress.com/

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    1. Obrigado :)
      Pois, pelo feedback que tenho recebido, se calhar tenho de pensar numa sequela para esta história!
      Fico contente por teres gostado, beijinhos.

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  4. Eh lá... Adorei parabéns. Excelente texto mesmo !!!

    Beijocas
    www.pirilamposemarte.com

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  5. Adorei! A minha opinião continua a ser a mesma, acho que devia seguir este mundo da escrita. Ficamos presos a cada palavra!

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    1. Que bom!
      Fico contente por ter conseguido alcançar o objectivo... quanto a seguir o mundo da escrita, vamos ver ;)
      Beijinhos.

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  6. Liliana Rainha11.10.17

    Brilhante. Sabe a pouco. Eu e os teus fãs estamos à espera de mais :-)

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    1. Obrigado Lili,
      Tenho cá a impressão que tu és a fã principal :)

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  7. Adoro, Adoro, Adoro!!! Fico à espera de mais, parabéns!

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    1. Obrigado Sara!
      Lá terei de puxar pela cabeça :p

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  8. A-d-o-r-e-i, sem dúvida que continuava a ler! Haverá uma 3ª parte? :D

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    1. Não estava prevista uma terceira parte, mas depois destes comentários, quem sabe?!
      ;)

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  9. Estás a dar-lhe para caraças!!! Força nisso!!!! :)

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  10. Gostei imenso embarquei completamente na história!
    beijocas, Sandra
    https://tudosobretudon.blogspot.pt/

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