29/08/2017

A ilha das onze


O barqueiro desatou o nó que prendia a pequena embarcação ao cais da pobre aldeia piscatória. Enquanto o fazia reparou nas suas mãos gastas pelo tempo, pelo sal, pelo sol, pelo trabalho duro ao longo de anos a fio, já tinha perdido a conta ao número de vezes que repetiu o mesmo ritual para zarpar rumo ao mar alto.

Naquela manhã de nevoeiro sentia-se diferente, tinha sido invadido por uma nostalgia imensa, ligou o motor do seu pequeno barco envelhecido e adentrou o nevoeiro rumo à ilha deserta a poucas milhas de distância, conhecia aquele mar como poucos e sabia perfeitamente quais as zonas junto à ilha onde a sorte tinha mais probabilidades de lhe sorrir.

O mar estava calmo, envolvido pelo denso nevoeiro deixou-se embalar pelo matraquear do motor e o barulho suave que a proa vazia ao abrir caminho pelas águas geladas, não se via nada além de 2 metros em cada direcção, mas sabia bem o rumo a tomar, tinha experiência e esta guiava-o mesmo às cegas.

A nostalgia fê-lo recuar muito anos, mentalmente viu-se novamente nos cuidados de sua mãe, recordou o pai de personalidade vincada, quase austero, mas justo e com quem aprendeu a arte da pesca desde muito novo.

Desde quando fazia isto? – pensou, parecia-lhe desde sempre!

O pai, mestre na arte da pesca, morreu a trabalhar em condições que nunca chegaram a ser explicadas, um dia foi para a faina juntamente com o Ti Jaquim, seu parceiro de pesca toda a vida e nunca mais voltaram, desapareceram sem deixar rasto, nem barco, nem corpos, nem tão pouco algum artefacto da embarcação, absolutamente nada deu à costa!

Já a sua adorada mãe viveu mais uns anos, mas sempre marcada pelo luto e desgosto de ser uma viúva sem corpo para velar, sem uma explicação do sucedido.

Voltou a focar a sua atenção no escasso mar que conseguia vislumbrar à sua frente, pelos seus cálculos deveria estar quase a chegar junto à ilha, desligou o motor e o barco manteve-se a deslizar por uns momentos.

Com o motor desligado e a pequena embarcação já praticamente parada, aguçou os ouvidos em busca do som das ondas junto à costa que deveria estar bem perto e à sua frente.

No entanto não ouvia o esperado som das ondas, nem das gaivotas habitualmente em grande número naquelas paragens - raios - pensou - desta vez perdi a noção - e tinha de facto perdido a noção de espaço e tempo, já que em grande parte do caminho percorrido esteve distraído com memórias de tempos idos!

Não restava outra alternativa que não fosse deixar o nevoeiro levantar, pois não iria arriscar continuar às cegas quando tinha perdido a orientação. Calmamente esticou-se ao comprido, ficando mesmo à justa no pouco espaço disponível e embalado pelo leve balançar do mar deixou-se dormir.

Acordou com o sol a queimar-lhe a pele, quanto tempo esteve a dormir? Não fazia ideia, levantou-se e olhou em volta... inquieto constatou que não vislumbrava absolutamente nada além de mar e céu, rapidamente confirmou duas vezes em 360 graus, só a linha do horizonte, nada mais.

Olhou a posição do sol e verificou o seu relógio de pulso, 11h
irra que dormi muito tempo!

Colocou o motor a trabalhar e tomando em linha de conta a hora e a posição do sol, dirigiu o barco para terra, longe ou perto a terra firme era naquela direcção.

Passou cerca de meia hora a navegar em linha recta, era tempo demais e nada de terra à vista! – mas como foi parar tão longe? As correntes naquela zona nem sequer são fortes! – estas indagações estavam a deixá-lo nervoso – e o gasóleo deve estar quase no fim – pensou confuso, enquanto desligava o motor, abriu o depósito e espreitou lá para dentro – bastante menos de meio – tornou a fechar o depósito e sentado bebeu um pouco de água de uma das garrafas que tinha – ao menos de sede não morro.

Abriu a marmita como que para confirmar a presença de duas sandes de presunto e meia garrafa de vinho, estava cheio de fome, mas o instinto levou-o a comer só metade de uma sandes e deu dois goles generosos no vinho.

Fechou tudo novamente e a imagem do pai desaparecido veio-lhe à mente, empurrou o pensamento para longe, limpou a boca à manga da camisa e ligou novamente o motor da embarcação
o continente fica naquela direcção, tenho a certeza e a tentar convencer-se a si próprio largou rumo ao horizonte.

Aproximadamente 10 minutos depois observou uns corvos marinhos e uma mão cheia de gaivotas – graças a Deus – disse para si próprio e logo de seguida vislumbra terra no horizonte, sorriu de felicidade e continuou nessa direcção, já com um estado de espírito de alívio.

Já mais perto de terra firme repara que não reconhece a paisagem, mais do que isso, aparentemente era uma ilha e não muito grande!

– Caraças, onde estou eu? – indaga perante a ilha na sua frente, a pouca distância percebia uma florestação densa, uma serra considerável posicionada sensivelmente no centro da ilha e nada de traços de civilização.

Do seu lado esquerdo percebeu o que parecia uma enseada natural, resoluto dirigiu o barco nessa direcção.

Era uma praia em forma de ferradura, a areia protegida do mar aberto fez lembrar-lhe São Martinho do Porto embora mais pequeno, dirigiu o barco rumo à areia, desligou o motor e deixou-se ir a deslizar com o embalo, bateu levemente na margem, saltou para a areia e puxou a pequena embarcação o máximo que conseguiu, estava maré cheia, prendeu o barco a uma rocha ali à mão no meio da areia e sentiu confiança de que o barco não sairia dali
agora a maré começa a vazar e está tudo bem pensou.

Ainda tinha bastantes horas de sol, como tal lembrou-se de comer a outra metade da sandes, um pouco de vinho para aconchegar, esvaziou a mochila com tralhas de pesca e meteu lá a outra sandes, com uma garrafa de água, colocou-a às costas e partiu na direcção do ponto mais alto da ilha.

Não fazia ideia de que ilha era esta, o tempo estava anormalmente quente e a vegetação era densa, a juntar a isto não conhecia a maioria das espécies de árvores e da vegetação em geral, pássaros de cores vivas esvoaçavam de árvore em árvore, parecia uma paisagem tropical como já tinha visto num filme qualquer na televisão velha de sua casa.

Como não tinha nada que lhe servisse de catana, teve de desviar caminho várias vezes, mas sem nunca perder o objectivo de subir a serra.

Transpirava abundantemente, o calor era insuportável, já tinha bebido a água quase toda, estava cada vez mais preocupado e confuso, parou um pouco e consultou as horas, marcava 11h – pelos vistos o relógio avariou – pensou, já tinha passado imenso tempo desde a última vez que tinha visto as horas e continuava nas 11, no entanto reparou no ponteiro dos segundos e este mantinha-se em movimento – estranho – ao mesmo tempo que olhou para cima, mas a copa das árvores era demasiado densa para conseguir percepcionar a posição do sol.

Nesse ponto começa a distinguir o barulho de uma corrente de água ao longe, a sede reclamou e decidiu ir nessa direcção. Bastantes metros à frente deparou-se com uma cascata pequena mas com água abundante e um pequeno lago.

Foi directo à cascata, começou por beber água timidamente, mas com o calor abrasador avançou para debaixo da torrente fresca mesmo sem tirar as roupas e manteve-se a refrescar uns longos minutos.

Depois de encher a sua garrafa com água decidiu continuar a subida, era urgente alcançar o cimo da elevação antes de anoitecer.

Passaram aproximadamente duas horas até conseguir chegar ao cume, estava exausto, sentou-se numa saliência rochosa e enquanto descansava observou o horizonte e a ilha em todas as direcções, para onde quer que olhasse não se via nada mais do que mar e a ilha não apresentava nenhum vestígio de construções feitas pelo homem.

Encontrava-se no ponto mais alto de uma ilha não muito grande, com uma floresta densa, todo o lado norte aparentava terminar em altas falésias rochosas junto ao mar, no lado sul vislumbrava bastantes praias, a sudoeste estava a pequena enseada onde tinha desembarcado e a sudeste uma linha de costa com praia contínua.

Reparou também que um pouco a Norte de onde se encontrava existia uma elevação um pouco mais baixa do que esta onde se encontrava, deveria ter uma nascente pois via uma pequena cascata ao longe, deveria pertencer à mesma linha de água que encontrou no caminho, felizmente a ilha tinha pelo menos uma nascente de água doce.

Olhou mais uma vez as horas, continuava a marcar 11h em ponto e o ponteiro dos segundos aparentemente a funcionar normalmente, verificou a posição do sol e percebeu que deveriam ser umas 17h, estava exausto, sem ideias e com medo, olhou mais uma vez toda a linha de costa à sua volta, reparando que não muito longe de onde tinha deixado o barco existia um local sem árvores, parecia-lhe um lago com uma pequena elevação rochosa numa das margens – será que o curso de água da cascata vai ter ali? – pensou – amanhã vejo o que será aquilo, para já tenho de ver onde vou passar a noite, já não tenho tempo de ir até ao barco – mas depressa lhe ocorreu que não iria preocupar-se nem mais um minuto com isso, estava no ponto mais alto da ilha, quando a noite cair conseguirá ver alguma luz que indique civilização por perto, além disso, entrar pela floresta dentro para passar a noite não lhe agradava nadinha.

No dia seguinte teria de pescar, mas no momento decidiu comer o restante farnel e terminou o vinho também. Após esse lanche, ainda arranjou força para apanhar lenha junto às árvores mais abaixo, juntou os maiores toros que encontrou pois queria ter lume toda a noite, empilhou-os, sacou o isqueiro que tinha por hábito sempre consigo e acendeu-o enquanto o sol se punha no horizonte.

Não estava vento, logo não existia perigo de uma fogueira tão grande, mas também não estava frio, pelo que o lume servia unicamente como defesa contra animais e alerta para algum barco que passasse junto à ilha.

Esteve acordado até altas horas da madrugada, por cima da sua cabeça ficava o mais estrelado céu que já vira, mas não conhecia as estrelas, algo estava de facto muito mal explicado, já que nem o céu era igual ao que sempre conhecera.

Durante as longas horas a observar minuciosamente tudo e em todas as direcções, manteve-se sempre sem vislumbrar um único vestígio humano, nunca viu nenhuma luz na ilha, nenhum barco, nem tão pouco nenhum avião. O cansaço acabou por vencer e dormiu algumas horas.

Acordou com o dia a clarear, a fogueira ainda fumegava e o céu estava limpo, olhou o relógio mais por hábito do que com esperança de ver as horas, continuava a marcar 11h, encolheu os ombros e decidiu pôr-se a caminho de imediato, tinha muito para fazer e a sua preocupação principal no momento era não morrer à fome.

Tentou tomar o mesmo caminho que tinha feito na véspera, conseguiu chegar à cascata onde se abasteceu de água doce e aproveitou para mergulhar no pequeno lago, deixou-se relaxar um pouco enquanto secava, mas decidiu continuar pois não tinha tempo a perder, andou durante algum tempo até que finalmente chegou ao barco já cheio de fome, deixou de parte tudo o que tinha ligação à sua actividade profissional principal (apanha de mariscos e polvo) pegou em duas canas de pesca e aproveitou a maré baixa para procurar moluscos na areia.

Sem dificuldade apanhou uma quantidade considerável de uma espécie que lhe parecia ameijoa, abriu-as com mestria e ajuda do seu canivete, arrancando o molusco para servir de isco.

Pegou nas canas, iscos, anzóis e chumbos, dirigiu-se a uma zona rochosa na sua esquerda e tentou a sorte na pesca, assim esteve aproximadamente uma hora, pescou 3 peixes generosos e decidiu parar, e enquanto se dirigiu novamente para junto do seu barco algumas ideias assombraram-lhe a mente – Como pescar quando ficar sem anzóis? Como acender fogueiras depois de o isqueiro ficar sem gás? Como caçar? Quanto tempo iria ficar naquela ilha desconhecida? – obrigou-se a deixar de pensar nisso, levar um dia de cada vez era o mais saudável e fácil de gerir.


Continua - não perca o fim desta história, tem surpresas e estará disponível dentro de alguns dias.😉

Este texto não foi escrito de acordo com o novo acordo ortográfico.

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