Resistência à mudança


O mercado de trabalho exige cada vez mais capacidade de adaptação à mudança, aprendizagem contínua e flexibilidade para desempenhar várias funções ao longo do tempo, mas curiosamente os processos de recrutamento parecem não estar a acompanhar essa exigência!

Teimamos em fazer as coisas como sempre foram feitas, sem pensar, sem inovar, sem objetivos de qualidade concretos e passiveis de serem medidos, como tal algumas das consequências estão à vista de quem dedicar cinco minutos por dia a percorrer as principais páginas de anúncios de emprego.

Salvo honrosas e raras exceções, vemos anúncios fraquíssimos, autênticos copy paste uns dos outros, imposição de balizas de idade, diferenciação de género, incontáveis empresas líderes de mercado apregoando clichés como o nosso principal valor são os recursos humanos, bem como ambientes jovens e dinâmicos com fartura.

Mas sobre isso já tive oportunidade de escrever anteriormente, o que pretendo abordar hoje é o desperdício de excelentes profissionais que não encaixam em nada e no entanto têm muito para oferecer.

Tomemos como exemplo um jovem de quarenta e poucos anos que conheço, a sua área de formação é em artes gráficas, trabalhou durante muitos anos em diversas publicações bem conhecidas no mercado, no entanto e como o mundo dos jornais e revistas tem sido bastante afetado pela Internet, foi apanhado num despedimento coletivo e ficou desempregado.

Recusou-se a cruzar os braços e trabalhou naquilo que lhe apareceu, passou por trabalhos temporários em Call Centers e auxiliar numa casa de repouso, foi administrativo numa clínica médica em substituição por licença de parto, até que conseguiu alguma estabilidade e pertence aos quadros de uma empresa onde tem a função de analista químico.

Não obstante ser um excelente profissional, dando provas de grande capacidade de adaptação, aprendizagem e flexibilidade, se decidir tentar uma nova oportunidade, qual é o seu valor no mercado de trabalho?

Infelizmente e perante o paradigma vigente, o valor é capaz de não ser grande coisa… vejamos:

  • Tem mais de 40 anos (e só por isto já está excluído em bastantes casos);
  • Na sua área de formação e mesmo com a experiência de vários anos, neste momento consideram-no desatualizado (para além de conseguirem estagiários a um custo muito reduzido);
  • Se tentar como analista químico, não tem praticamente hipótese nenhuma porque não tem formação na área, e embora com mérito, foi parar à função atual um pouco por acaso;
  • Ao candidatar-se a outros âmbitos, ou consideram-no sem experiência, sem o perfil pretendido, ou é encarado com desconfiança, já que surge a questão do motivo... o que leva uma pessoa de artes gráficas, ou um analista químico a concorrer a esta função?
É uma pescadinha de rabo na boca!

Como este caso real que descrevi existem imensos semelhantes, e com isto temos inúmeras pessoas a mentirem no seu Curriculum Vitae, omitindo uma série de informações quiçá úteis, na tentativa de apresentar o que os recrutadores querem ler.

É isto que queremos?

Se calhar é! Assim não se perde tempo, joga-se à defesa, não se pensa muito nem se sai da zona de conforto. 

Em caso de susto mete-se a cabeça na areia e espera-se que passe. É até irónico pensar que muitas vezes são as áreas de recrutamento as primeiras a apresentar tanta resistência à mudança.


2 comentários:

  1. Sofia Felizardo18.5.16

    Tens toda a razão. Para voltar ao ensino escondi a área da Cozinha,justamente porque as pessoas desconfiam do motivo de ir parar a uma cozinha. Isto obriga-me a mentir e omitir, o que é triste.

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    1. Não sabia que tinhas voltado ao ensino!
      :-)
      Beijinhos

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