O fim



Entrou no centro de comando em passo apressado, dirigiu-se ao seu lugar com ar grave sem olhar para a imensa angustia que transparecia na maioria das faces dos seus colaboradores mais diretos, já no seu lugar, deu uma vista de olhos no monitor à sua frente e confirmou no mapa a informação que lhe tinham transmitido verbalmente minutos antes.

Levantou-se, tossiu levemente para disfarçar o nervosismo e limpar a voz, dirigindo-se de aos presentes firme, alto e bom som para que todos o ouvissem:

- Como sabem, o pior cenário que alguma vez traçámos como sendo teoricamente possível, confirmou-se como cenário real há poucos minutos. Neste momento não temos quaisquer notícias de nenhum dos nossos postos avançados de defesa primária, nem dos postos de defesa secundária, não respondem às nossas tentativas de contacto e desapareceram do mapa, pelo que assumo que tenham sido destruídos, a juntar a isto, vários objetos não identificados deslocam-se na nossa direção a grande velocidade. Com os dados que dispomos, é quase certo que estejamos perante algum tipo de armamento de destruição maciça. Como é do vosso conhecimento, estamos sem defesas e à velocidade a que se deslocam, restam-nos menos de 15 minutos antes do primeiro impacto na posição que ocupamos.

Fez uma pausa, aproveitando para passar os olhos por algumas caras que o tinham acompanhado nos últimos 2 anos, a maioria das expressões denotava medo, outras estavam desprovidas de qualquer emoção, existiam algumas lágrimas a correr num ou noutro rosto, mas o silêncio era ensurdecedor.
Decidiu concluir - quem desejar, pode recolher aos aposentos, aqueles de vocês que tenham algum tipo de fé, peço que orem por todos nós neste momento difícil e aproveito para vos agradecer o excelente trabalho que desenvolveram comigo dia após dia, sei que nem sempre fui uma pessoa fácil e acessível, mas foi um gosto trabalhar com cada um de vós. Tenho a convicção de que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Obrigado.

Sentou-se novamente no seu lugar e desta vez concentrou-se no vídeo hall, mas pela visão periférica percebeu que a maioria se manteve nos seus postos.

Rapidamente inseriu no seu computador as instruções necessárias para saber quanto tempo faltava para o impacto, e apareceu no monitor:

9:56

9:55

9:54

- Menos de 10 minutos - pensou, pegou no microfone e ligou a aplicação de gravação áudio do seu computador:

- Mensagem do posto de comando central:

Hoje é um dia tão bom e especial como qualquer outro.

Todos os dias o são.

Ainda assim, seja por ignorância, por orgulho, por medo, por regras muitas vezes impostas por nós próprios e/ou outros motivos, teimamos em evitar ostensivamente tantos pequenos momentos especiais durante a nossa existência!

Só quando a morte nos rouba aquilo que julgávamos infatilmente seguro, abanamos e lembramos a última despedida que não sabíamos ser a última, o beijo que não demos, o abraço que não existiu porque pensámos que teríamos tempo noutra ocasião, nos piores casos lembramos a discussão tola que ficou selada estupidamente como despedida... sentimos o tempo perdido e irreparável.

Quantos de nós aqui presentes sentem isto relativamente a pais, filhos, companheiros e amigos neste preciso momento?

Hoje é um dia tão bom e especial como qualquer outro, uma verdadeira dádiva!

A todos os que porventura ouvirem esta gravação, desejo que tenham isto presente e não deixem que a vida vos passe ao lado.

Desligou o gravador, fez rapidamente o upload da mesma para a rede externa, pensou na sua amada e cerrou os olhos... à espera.


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