O primeiro dia do resto da tua vida




A melhor forma de esquecer algo que incomoda é focar a vida numa ocupação exigente e o Filipe estava a levar isto à letra, no entanto enquanto estava concentrado no trabalho já fora de horas, a sua atenção foi desviada pelo som do seu smartphone a indicar uma qualquer notificação.

Distraidamente pegou no aparelho, olhou para o ecrã e verificou que no facebook tinha uma mensagem nova de um amigo de longa data, abriu-a:
Olá amigo, está a apetecer-me dizer-te algo:
Estás a amar alguém, alguém que tem medo de amar!
Dá-lhe amor, carinho, fá-lo por gestos, transmite-o nas palavras, diz-lhe como é bom amá-la, vivemos para ser felizes, o sofrimento apenas existe para perceber-mos que não queremos viver com ele, sê feliz!
Ficou gelado a olhar para a mensagem! Porque raio o Paulo lhe teria escrito esta mensagem?! Sabia que ele é médium, mas nunca ligou muito a isso, mediunidades e afins são temas que não lhe chamam a atenção, no entanto neste preciso momento sentia-se admirado e perdido. Sim, é verdade que ama uma pessoa, mas ninguém sabe, como e a que propósito veio esta mensagem?

Por impulso decidiu responder:
Queres dar mais pormenores? O que te levou a escrever isso?
A resposta não tardou:
Não sei, senti um impulso bom para te transmitir isto. Não me é permitido vê-la, mas sei que está longe, tu por vezes consegues desculpas para ficar um pedaço de tempo perto, para a veres, até o brilho dos teus olhos fica diferente, gostas mesmo dela, eu sinto que não é uma paixão, é amor verdadeiro. Oh pá, é bom amar, vai à luta, não desistas, fá-la sentir especial, não é assim que a sentes? Então transmite-lhe isso! Existem pessoas que têm medo de voltar a amar, sê paciente e tenta.
Esta mensagem era a última coisa que precisava! Funcionou como um murro no estomago e fez estragos imediatos, já não iria conseguir continuar concentrado no que estava a fazer, gravou o trabalho, desligou o computador e saiu em direção ao metro.

Não acreditava em médiuns, mas fosse por superstição ou não, neste momento não via outra explicação para que o Paulo soubesse tanta coisa a seu respeito – calma – pensou enquanto seguia em passo apressado – o próprio Paulo certa vez em conversa disse que os médiuns não são bruxos, pode estar a ser influenciado para me baralhar a cabeça – e assim continuou a convencer-se a si próprio.

– Raios, estava quase a conseguir esquece-la… tanto trabalho que deu focalizar o seu pensamento noutras coisas para agora tudo ter voltado à estaca zero com esta mensagem – enquanto caminhava os pensamentos sucediam-se, recordou-a, recordou momentos bons e irrepetíveis, sorriu de felicidade, mas logo de seguida recordou a frieza, a distância imposta – não, é impossível ser correspondido caso contrário não me trataria assim!

Enquanto descia as escadas que dão acesso à estação de metro pegou novamente no smartphone, tinha uma nova notificação no Facebook, mas desta vez era ela – parece que é bruxa – pensou enquanto abria a mensagem:
Olá :)
Como estás?
Apreensivo, mas de coração acelerado respondeu:
Olá. Estou bem e tu?
Nesse entretanto o metro chegou, entrou e sentou-se no lugar vago mais próximo, quando olhou novamente para o ecrã já tinha resposta:
Também. Este mês não vens cá?
Engoliu em seco:
Depende, estás a convidar-me?
A resposta foi um balde de água fria (mais uma vez):
A trabalho…
Já habituado a este tipo de deceção, lá respondeu contrariado:
Não, este mês não vou
Olhou em volta a verificar em que estação se encontrava, Avenida, ía sair na próxima, levantou-se e voltou a atenção novamente para o aparelho:
:(
Gosto muito de ti, muito mesmo!
Gostas?! – pensou – mas como raio gostas e me manténs ao longe?! – recordou novamente a mensagem do amigo, desligou os dados da Internet e colocou o smartphone no bolso do casaco, só lhe apetecia dizer asneiras!

– Isto não me faz bem, tenho de colocar um ponto final nesta história, recuso-me a acreditar na parvoíce que o Paulo me enviou, não faz sentido, isto não me faz mesmo nada bem e deixei de viver normalmente à espera de algo que nunca vai acontecer – dirigiu-se para casa com os pensamentos a fervilharem no cérebro, mal chegou, pousou as suas coisas, ligou o computador pessoal e decidiu responder à última mensagem ainda a quente (enquanto mantinha a coragem):
Sou/estou apaixonado por ti, mas não queria…

O teu silêncio afeta-me, mas a tua “presença” afeta-me mais…

Não sou capaz de “terminar” contigo porque estás no meu imaginário, porque sonho contigo, porque te desejo…

Acaba tu comigo, ausenta-te mais, não me dês troco…

É contraditório, peço-te isto, mas no fundo imploro que não o faças…

Sim, estou louco… louco porque te ausentas, louco porque reapareces, louco por mexeres comigo como mexes, louco por nunca termos tido nada, mas sempre ter desejado que tivesse sido diferente…

É algo que me sai do peito… de tal forma que dói… muito mesmo…

Não sendo eu forte o suficiente para meter um fim nisto, ajuda-me… carrega no “off”!!!

Amo-te!
De seguida encostou as costas à cadeira, ficou imóvel uns momentos a ler a mensagem acabadinha de enviar, até que foi despertado desse momento letárgico pela música que passava na rádio online que tinha o hábito de ouvir sempre que navegava na Internet:
(...)
E agora, será que te perdi?
E agora, se terminar aqui?*
(...)
Apagou o computador, não fez o jantar (não sentia fome), decidiu ir dormir imediatamente – amanhã é outro dia – pensou – vais acordar novo e vai ser o primeiro dia do resto da tua vida!

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Este texto foi escrito a meias com a Diadri, a quem desde já agradeço a excelente colaboração e ideias frescas!

* E agora - Mikkel Solnado e Joana Alegre

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