O comboio

De: Frederico
Enviada: quarta-feira, 5 de Novembro de 2014 10:33
Para: Catarina
Assunto: O comboio mudou tudo!

Olá Catarina,

Na impossibilidade de estarmos juntos a esta hora, ou sequer de falarmos à vontade pelo telefone, decidi aproveitar o tempo em que estou em viagem para enviar-te um email, até porque entre nós a escrita sempre funcionou muito bem.

Estive a pensar, sabes? E surgiram-me algumas coisas que gostaria de partilhar contigo:

Depois de 13 anos sem te ver, (re)entraste na minha vida de rompante e não foi uma (re)entrada qualquer, caraças pá, em jeito de parábola consigo descrever que vieste como uma locomotiva possante e escavacaste montes de coisas numa fração de segundos.

Decidiste mostrar com todas as letras um valente - “Lembras-te da menina que eu era? Então agora esquece-a, ao fim destes anos todos essa menina já não existe, transformou-se nesta mulher furacão e se quiser parto isto tudo!”.

Curiosamente, apercebo-me que partes mesmo!

Antes sequer de eu dizer um ai, puxaste-me pelo braço para dentro de um comboio em andamento, tendo o cuidado de logo em seguida me fechares com elegância a porta que dá acesso à 1ª classe, uma elegância superiormente cuidadosa mas firme (!) o comboio seguia rápido, eu tinha acabado de entrar, estava com o coração acelerado e também zonzo de medo, confesso que (ainda) nem tinha pensado na possibilidade de passar para primeira classe, mas gostei que te antecipasses… não fosse o diabo tecê-las.

E és assim em tudo, falas de qualquer coisa com frontalidade, entregas-te por inteiro em todos os contextos, é tudo intenso, é tudo a uma velocidade alucinante, é tudo com verdade, uma verdade seca mas confortável, justa e quem não gostar que salte da carruagem em andamento, mas eu gosto e sinto-me seguro, é por isso que me sentei num lugar vago junto à janela e só sairei daqui se o revisor me expulsar.

Mas porque te escrevo isto?

Simplesmente porque me infetaste com essa urgência de viver, de expor as coisas na hora, de não esperar por um daqui a pouco que pode não existir!

Recordas-te neste domingo quando estiveste a divagar sobre o possível motivo para o nosso reencontro?

De minha parte acho que sei o motivo! Sou da opinião de que alguma coisa ou alguém (Deus?! Uma força superior?! O destino?!), te colocou no meu caminho para me distraíres do meu vício, repara:

Nestes últimos dois meses o teu exemplo avassalador, a tua forma de estar e de viver, fez-me (re)aprender que o amor é para ser vivido no máximo, com frenesim, paixão, entrega total, dar tudo sem medos, mas receber tudo também, e ao aperceber-me disto fui-me desligando aos poucos de um vício sem sal, que nem é nem deixa de ser, não luta, não muda, não arrisca um milímetro, não me diz sim, mas também não é capaz de me dizer não, está ali, mas também podia não estar e a diferença é pouca ou nenhuma, foi perdendo a piada.

Mudei! Estou diferente! Entre outras coisas, nota-se que estou mais brincalhão, despreocupado, mais solto, mais alegre, não me ando a magoar (isso é muito, mas muito bom) e estranhamente sinto-me saudavelmente desprendido.

Sabes que consigo definir o momento em que percebi isto? Senti-me diferente no exato momento em que recentemente o seu sexto sentido feminino me fez uma pergunta, não foi uma pergunta qualquer, foi aquela questão especifica que delimita a ténue diferença entre o que era antes e o que é agora.

Respondi que não, obviamente não há ninguém… e de facto não há, mas na verdade existe a tua (boa) influência por detrás desta mudança, o mérito de mudar o chip é meu, as opções são minhas, mas agradeço ao destino ter colocado a tua influência como elemento que despoletou esta alteração.

Perante uma porta que nunca esteve aberta, mas que também nunca foi fechada, dei conta que perdeu o encanto, fechei eu a porta com jeitinho e agora mesmo que o impossível ocorresse e a porta se abrisse, eu já não queria entrar, sou eu na mesma, mantenho-me um ombro amigo, mas no restante... mudei!

Acho que teres (re)aparecido no meu caminho foi o melhor que podia ter acontecido, somos parecidos, mas essa fibra, essa urgência, esse turbilhão de bem viver estava adormecido em mim e acordou no momento em que me puxaste pelo braço para dentro desse comboio aparentemente desgovernado.

Agora não entendo nem acredito que o acaso tenha tido um trabalhão destes, tenha pacientemente acertado as linhas todas para nos (re)encontrarmos como que por acaso, e depois só eu é que sou beneficiado... não acredito, não acredito mesmo!

Importas-te de me explicar onde eu vou ajudar? Ou inconscientemente estás mais uma vez armada em Madre Teresa de Calcutá?

O futuro o dirá, estarei cá para ver e vou gostar se permitires que me mantenha a viajar nesse comboio de amizade pura, bruta, estonteante e desafiadora.

Gosto de ti!

Beijinhos,
Frederico

In Crónicas de Catarina e Frederico - mais novidades nos próximos meses (se correr bem).


0 comentários:

Enviar um comentário

Todos os comentários serão publicados, excepto spam e/ou os que contenham linguagem inapropriada.

Laudas mais lidas nos últimos 7 dias