O idiota


A paisagem era de uma beleza extrema, a luz do sol criava um efeito especialmente bonito naquele jardim impecavelmente cuidado, a temperatura era amena com uma leve e agradável brisa, originando um ambiente mágico.

Encheu o peito de ar, estava revigorado e não se lembrava de se sentir assim tão bem há muito tempo, satisfeito iniciou um passeio exploratório, quando lhe ocorreram duas questões preocupantes – Onde estou eu? Como vim aqui parar?

Subitamente ficou nervoso, sentia o coração acelerado e na sua cabeça surgiram rapidamente vários pensamentos terríveis – será que estou com alguma doença tipo Alzheimer? – acelerou o passo em direção a lado nenhum e reparou na súbita alteração da paisagem, sem perceber que o seu estado íntimo influenciava a realidade à sua volta deu conta que o céu ficou carregado de nuvens negras e o ambiente pesado, espantado viu-se num estreito caminho lamacento e o jardim encontrava-se agora completamente abandalhado cheio de ervas daninhas, árvores secas e lixo acumulado por todo o lado, a brisa tinha-se transformado num vento frio e incomodo quando um grito alucinante e desesperado ecoou bem perto de si.

Começou a correr como louco, não percebia o que se passava e teve a nítida sensação de ser seguido por várias pessoas, gargalhadas tenebrosas rodeavam-no e era ameaçado por vozes animalescas vindas de algures – CORRE... VÁ CORRE… NÃO IRÁS LONGE HAHAHAHAHAHAH.

Estava em pânico, não conseguia pensar e só lhe parecia estar a viver um filme de terror, um relâmpago caiu sobre uma árvore mesmo à sua frente e foi atingido pela onda de calor resultante da explosão elétrica, foi projetado para trás indo cair desamparado de costas num charco lamacento, sentiu-se tonto, a desfalecer, mas antes de perder a consciência ainda ouviu uma voz firme a dizer – aplique-lhe o desfibrilador novamente, vamos recuperá-lo.

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Na sala de urgências o ambiente é caótico mas organizado, a equipa médica luta contra o tempo na tentativa de reanimar um paciente que deu entrada em paragem cardiorespiratória, este ultimo choque deu resultado, o batimento cardíaco tinha-se reiniciado, mas o paciente ainda inspirava muitos cuidados.

Ana, uma das enfermeiras presentes na sala não evitou um pensamento perverso originado pela sua total descrença – este ainda voltou, só espero que não seja mais um idiota que venha dizer que viu a luz enquanto esteve clinicamente morto.

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