A folha em branco



Estava uma bonita manhã de inverno, embora muito fria o sol brilhava e o céu apresentava-se sem nuvens com uma tonalidade de azul lindíssima.

Junto à janela do quarto, sentado numa cadeira confortável em frente a uma pequena secretária, He andava à bulha com a sua imaginação, não podia acreditar que estava a passar pela famosa síndrome da folha em branco, não, não, mil vezes não!

Tantas vezes defendeu que a síndrome da folha em branco era uma desculpa esfarrapada para dar azo à preguiça, uma saída airosa para os famosos não cumprirem prazos, ou tão simplesmente a consequência do uso de álcool ou drogas… mas ali estava ela, a maldita folha encontrava-se imaculadamente branca e a imaginação parecia ter partido para parte incerta.

Mentalmente percorreu tudo quanto já tinha produzido – não – pensou – não posso cair no erro de reaproveitar o que já fiz pois corro o risco de me repetir – nervoso e com um sentimento crescente de frustração a invadir-lhe o intimo, rabiscou umas coisas, mas considerou que não tinham qualquer valor, deitou tudo fora, lentamente pegou noutra folha e notou que já lhe fazia impressão o simples olhar para uma folha em branco, sacudiu a cabeça resoluto em ultrapassar esta fase menos boa, mas tudo o que lhe vinha a mente parecia-lhe sem sentido!

Assim continuou por mais umas horas, numa espiral de tentativa / erro decadente até o sol desaparecer no horizonte e a noite envolver o seu quarto.

Cansado, nem acendeu a luz, ao menos assim não via a folha em branco. Deixou-se simplesmente ficar imóvel, sentado com os braços apoiados na secretária, fechou os olhos e pensou longamente, até que teve uma ideia – é mesmo isso – pensou – no lugar de criar várias coisas dispersas, porque não começar tudo de novo? Criar algo realmente grandioso que englobasse tudo o que a sua imaginação quisesse – sorriu feliz com esta solução, as possibilidades eram infinitas, só tinha de criar um inicio.

Mantendo os olhos fechados imaginou todas as suas criações dispersas a desaparecerem, não existia nada, absolutamente nada.

Abriu os olhos, nada!

A escuridão e o silêncio eram totais, nesse momento sorriu e disse:

– Faça-se luz – e a luz fez-se.

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