Vais ser o meu papá?


Sérgio nem estava a acreditar no que estava prestes a fazer, só muito raramente agia por impulso como estava a fazer agora, o telefone estava a dar sinal de chamar – se calhar não vai atender – pensou.

– Estou – a voz dela soou no seu ouvido, afinal sempre atendeu e já não podia voltar atrás, rapidamente ainda lhe ocorreu falar uma outra coisa, mas não se lembrou de nada – Estou?! – ouviu insistir do outro lado.

– Olá Alexandra, sou eu, o Sérgio.

– Olááá, que surpresa boa! Mudaste de número?! Não me apareceu o teu nome quando ligaste!

– Ainda tenho o mesmo número, mas estou a ligar do telemóvel da empresa.

– Ok, já entendi. Conta coisas.

– Ah, pois… sabes, eu, eu… bom… estou a ligar-te porque… bem – estava tão nervoso e envergonhado que nem conseguia dizer o que queria, mas de seguida lá saiu a frase de uma vez só – queres ir jantar comigo amanhã?

– Claro! Mas diz-me, qual é o motivo da comemoração? Não fazes anos por estes dias pois não?

– Não. Não existe comemoração nenhuma, lembrei-me de te convidar para jantar, é só.

– Está bem. Mas olha, não tenho ninguém com quem deixar a Inês… – e o Sérgio nem a deixou acabar a frase.

– Também vem connosco, qual é a dúvida?

– Sendo assim, combinado!

Ainda trocaram mais uns dedos de conversa antes de desligarem – ela aceitou, yesss! – pensou.

No dia seguinte na hora combinada foi buscá-las, dirigiram-se a um restaurante calmo que o Sérgio conhecia na cidade e tiveram os 3 uma noite muito agradável.

Estava admirado consigo próprio, sendo tímido por natureza deu por si bastante solto durante o jantar, de seguida levou-as a casa e acabou por aceitar o convite para entrar.

Agora sim, estava tímido e pouco à vontade, afinal de contas estava no lar da Alexandra, a mulher por quem tem uma paixão secreta! Ainda se tentou convencer a agir normalmente, porquê estar assim? Mas era mais forte do que ele.

Alexandra estava a achar piada à situação, há muito que sentia que tinha ali um apaixonado, mas nunca lhe tinha parecido tão evidente – este gajo é mesmo tímido – pensou e em ato contínuo disse à filha – Inês, são horas de ir dormir, vá, dá um beijinho ao Sérgio.

A miúda gostava nitidamente dele, foi a correr na sua direção e já junto deste dispara – Ségio, vais ser o meu papá?

Os dois adultos foram apanhados de surpresa com aquela questão, mas é nas situações mais difíceis que muitas vezes se consegue ver o verdadeiro interior das pessoas, naquele momento ele nem pensou bem no que estava a responder, mas agachado junto da miúda (para ficar perto da sua altura), pegou-lhe nas mãozitas e disse-lhe – Inês, o teu papá é e vai ser sempre o César. Ele gosta muito, muito de ti e nunca vai deixar de ser teu amigo. Ele é o teu papá para toda a vida, mas se quiseres e se a tua mamã der autorização, sempre que cá estiver posso ser tão amigo como o teu papá, queres?

Inês acenou afirmativamente com a cabeça e ele deu-lhe um abraço disfarçando a emoção que sentia interiormente, Alexandra estava com os olhos marejados de lágrimas a observar os dois, mas segurou-se e disse – vá, agora são horas de ir deitar, vamos lavar os dentes? – sim, mas o Ségio pode ler uma história pa mim antes de dormir?

– Posso pois, não posso mamã? – e olhou a sorrir para Alexandra, esta sem grande margem de manobra acedeu, foi com a filha para o WC enquanto Sérgio ficou na sala a ver um pouco de televisão e depois de ter deitado a miúda, chamou-o.

Pacientemente leu três vezes a mesma história (a pedido da pequena), até que esta adormeceu e foram novamente para a sala. Depois destes acontecimentos estavam ambos pouco à vontade, constrangidos, o ambiente estava esquisito e não existia assunto – Bom, vou andando, obrigado pela excelente companhia.

– Já?! Não vás já – Alexandra estava mesmo a ser sincera, interiormente desejava que o Sérgio não fosse tão tímido.

– Não?! Bom… não sei, é… bem, é tarde.

– Fica…

Ele estava mortinho por ficar, mas sentia-se desconfortável, a timidez estava a dominá-lo. O tom de voz meigo com que aquele fica foi dito, juntamente com um olhar doce (até agora desconhecido de Sérgio) fez disparar-lhe o coração, mas o seu cérebro insistia em lhe ecoar o alerta de que nada estava a acontecer – ela não tem interesse em ti, isto é só da tua cabeça – pensou, e meio hesitante lá lhe disse – está bem, posso ficar mais um pouco.

Enquanto se sentaram no sofá, Alexandra tratou de arranjar assunto – Não sabia que tinhas jeito para crianças!

– Pois, nem eu – disse Sérgio a sorrir.

– E o que querias dizer quando te ofereceste para ser uma espécie de pai para a Inês? – Alexandra fez esta pergunta propositadamente, estava divertida ao perceber a excessiva timidez de Sérgio, há muito que sabia que o sentimento dele por ela era muito maior do que simples amizade. Estava a sentir-se atraída e quis testar até onde ele seria capaz de ir.

– Então… bom… quer dizer – ele estava visivelmente atrapalhado – sempre que por algum motivo estivermos juntos (como aconteceu hoje), eu posso ser tão amigo como o pai dela.

–  Mas um pai não é isso! Um pai não é um amigo que aparece de vez em quando – argumentou ela a olha-lo diretamente nos olhos – pai educa e está presente todos os dias, é uma responsabilidade difícil e exigente, implica muita dedicação e espírito de sacrifício – aproximando-se devagar e sem nunca deixar de o olhar nos olhos, pergunta-lhe – estarias preparado e/ou disposto a ter essa responsabilidade? Será que gostas da mãe da Inês assim tanto?

O Sérgio estava espantado com o rumo que a conversa tomou, sentia-se de tal forma inseguro e inibido que ficou imóvel como uma estátua, quase que nem pestanejava, sentia a respiração suspensa e o coração descontrolado dentro do seu peito.

Rapidamente a cabeça astuta da Alexandra avaliou a situação – ainda bem que estamos no século XXI, caso contrário não podia dar um pequeno empurrão ao rapaz – pensou, sorriu com o seu próprio pensamento e enquanto aproximou os seus lábios dos lábios de Sérgio, sussurrou – Gostas da mãe da Inês?

Ele não respondeu, mas fechou os olhos e beijou-a, seguiu-se um abraço que os fundiu, os beijos foram-se sucedendo na tentativa de recuperar o tempo perdido, Sérgio estava eufórico, soltou-se, a timidez relativamente à Alexandra morreu naqueles minutos, no entanto o sentido de responsabilidade estava bem vincado na sua personalidade e não queria abusar, a custo e contrariado olhou para o relógio e disse – já é tarde, vou andando para te deixar dormir…

– Fica…

E ele ficou. 

Ficou todos os dias do resto das suas vidas!

0 comentários:

Enviar um comentário

Todos os comentários serão publicados, excepto spam e/ou os que contenham linguagem inapropriada.

Laudas mais lidas nos últimos 7 dias