O príncipe encantado

 

E ali estava ela, nada tinha acontecido como sonhava, estava com 40 anos, desempregada, divorciada e com uma filha de 6 anos que iria entrar este ano na escola.

Com que dinheiro vou orientar a minha vida? – pensou enquanto tirava o telemóvel da mala com o objetivo de verificar se alguém lhe teria telefonado em resposta aos Curricula* enviados.

Nada, nem um só telefonema, no entanto nesse preciso momento recebe um SMS – Estou a chegar – sorriu, o Rodrigo era uma pessoa extraordinária, tinham-se conhecido pela Internet quando numa rede social ela comentou uma publicação de uma página famosa e ele não concordou com o seu ponto de vista.

Ao recordar esse momento abriu ainda mais o sorriso, começaram por trocar argumentos de forma educada em público e de seguida passaram a trocar mensagens privadas, o assunto acabou por morrer, mas a troca de mensagens continuou, foi a primeira pessoa que adicionou como amigo sem conhecer!

Mais tarde chegaram à conclusão que não moravam muito distantes, ele desafiou-a para um café e ela aceitou. Foi agradável, repetiram o encontro para café mais vezes, foram à praia, fizeram um piquenique, tudo coisas em conta visto que nenhum dos dois era abonado, ele também estava desempregado e o subsídio de desemprego estava a aproximar-se do fim.

No momento sentia um sentimento inexplicável por ele, não conseguia admitir a si própria que estaria apaixonada, mas há muito tempo que não se sentia assim e era bom! Borboletas na barriga, alegria por o ir ver, felicidade quando recebia um SMS com um miminho, enfim, estava feliz com este capítulo da sua vida.

No entanto estava com pena pois tinha de colocar travões a fundo nisto, não podia permitir que isto se transformasse num relacionamento, muito menos num relacionamento sério! A casa dela era minorca, mas dava para ela e para a filha, quanto à dele, nem pensar pois era pior ainda. Além disso daqui a dois meses ele iria ficar sem subsídio de desemprego, como ía ser? Do lado dela o dinheiro mal chegava para as duas, não podia contribuir com nada para ele, muito menos sustentá-lo.

Viu-o ao longe e acenou-lhe, à medida que ele se aproximou reparou no brilhozinho dos seus olhos e sentiu o seu próprio coração a bater mais forte – Olá Carla – cumprimentaram-se com dois beijinhos, mas desta vez ao mesmo tempo que a cumprimentava tocou-lhe levemente na mão direita, ela estremeceu nervosa – Olá – sorriu a sentir-se meio desajeitada – Porque combinaste comigo aqui ao pé do Metro do Cais do Sodré?

Ele deu um sorriso algo maroto e responde – Porque podemos passear junto ao rio até ao Cais das Estacas… penso que pode ser algo de muito romântico – e piscou-lhe o olho trocista – Parvo – replicou ela a rir-se – A vista que se têm do outro lado do rio é tudo menos romântica!

Não faz mal, olhamos só para a água – Carla visivelmente bem disposta e completamente à vontade na presença de Rodrigo, aproveita o facto de este estar com a mão esquerda no bolso e entrelaça o seu braço direito no dele – vamos lá então.

Estava uma tarde muito agradável, céu limpo, temperatura amena e a conversa seguia animada, a afinidade entre os dois era evidente e encontravam-se muito próximos, sem perceberem bem como, os braços deixaram de estar entrelaçados, estavam de mão dada, pararam, ficaram frente a frente imóveis, olhos nos olhos, corações acelerados, Carla sentiu a sua face ruborizar como se de uma adolescente se tratasse… os lábios de Rodrigo aproximaram-se devagar e ela deixou-se levar pelo momento, foi mágico.

As preocupações que lhe ocupavam a mente uns minutos antes, esfumaram-se na fusão de dois lábios que se uniram como quem mata saudades de outros séculos, sem terem consciência disso no momento, o velho clichê do tempo parar e nada mais existir à volta ocorreu ali, à beira rio, naquela tarde de sol.

E estavam felizes!

--//--

Dois meses depois o subsídio de desemprego do Rodrigo terminou, intimamente Carla estava preocupadíssima com toda esta situação, mas gostava demais dele, tinha-se entregue por inteiro e ao seu lado sentia-se preenchida.

Na Internet procurava trabalho para si e selecionava também anúncios para ele, mas até ao momento sem sucesso. Estava absorvida nestes pensamentos quando foi interrompida pelo toque do seu telemóvel, olhou para o visor e não reconheceu o número – talvez seja alguém de uma das empresas para onde concorri – pensou enquanto pegou no telemóvel, atendeu – Estou – do outro lado soou uma voz feminina com uma postura profissional.

– Muito bom dia, estou a falar com Carla Silva?

– Sim – respondeu esperançosa.

– Muito bem, o meu nome é Mónica Araújo da Future Consulting**, estou a contacta-la pois analisámos o seu Curriculum Vitae e gostaria de saber se tem interesse em marcar uma entrevista nas nossas instalações.

– Sim claro – mentalmente estava confusa, não se recordava de ter respondido a nenhum anúncio para esta empresa, nem tão pouco de ter enviado uma candidatura espontânea – Pode recordar-me a função e a morada das vossas instalações por favor?

A sua interlocutora deu como resposta a morada das instalações, marcou hora da entrevista para o dia seguinte, indicou que deveria dirigir-se a ela, mas fugiu nitidamente à questão da função.

Carla ficou apreensiva, mas necessitava tanto de um trabalho que decidiu ir na mesma, no entanto mantinha-se confusa, foi pesquisar na Internet e teve a certeza que nunca tinha enviado nenhuma candidatura para aquela empresa! Ainda assim, no fim do dia contou a novidade ao Rodrigo que ficou radiante – Mantém a calma e sê tu própria durante a entrevista, vais ver que tudo irá correr bem – e disse-lhe aquilo com tal calma e convicção que a acalmou um pouco.

Nessa noite e na tentativa de a distrair, foram com a pequena Sónia (filha da Carla) passear numa zona calma da baixa, ainda viram um espetáculo de rua realizado por um grupo amador e por fim cada um foi para sua casa. Antes de dormir Carla ainda recebeu um SMS – Gostas de mim? – sorriu e respondeu – Sim, muito mesmo! – e como resposta final ainda recebeu – Que bom :) boa sorte para amanhã, dorme bem, bjo.

No dia seguinte, 10 minutos antes da hora marcada, Carla entrou no edifício onde estava sediada a Future Consulting, ao segurança disse vir a uma entrevista marcada com Mónica Araújo e este indicou-lhe que teria de subir até ao 6º piso e virar à esquerda quando saísse do elevador.

Assim fez, a Mónica recebeu-a de forma formal mas muito simpática, acompanhou-a até uma sala de reuniões, convidou-a a sentar-se e pediu que aguardasse um pouco saindo de seguida.

Carla encontrava-se numa sala sóbria, muito bem decorada, estava muito nervosa mas concentrou-se num pensamento positivo, aproveitando a ocasião para fazer uma oração mentalmente pedindo auxilio.

Após alguns minutos de espera, ouve-se a porta a abrir, o seu olhar dirigiu-se nessa direção e ficou estarrecida! – Bom dia Carla, como te sentes?

– Rodrigo?!

– Sim, sou eu mesmo – disse Rodrigo enquanto fechava a porta atrás de si, sentando-se de seguida numa cadeira à sua frente – Decidi chamar-te pois não sabes tudo sobre mim e quero colocar-te ao corrente de tudo, tudinho!

Carla estava zonza de tão confusa, de olhos fixos nele não conseguiu articular absolutamente nada – Pôr-me ao corrente de tudo?! Mas de tudo o quê? – pensou enquanto o observava vestido com um fato impecável, ela nunca o tinha visto de fato!

Enquanto isso, Rodrigo a sorrir abriu uma pasta que tinha consigo e lá de dentro retirou uma pequena moldura, esticou o braço para lha passar – Vê isto – Carla pegou na moldura e esta continha um boletim do Euromilhões – Um boletim emoldurado? – perguntou meio sem jeito.

– Sim, de facto eu fiquei desempregado há cinco anos, passei por bastantes dificuldades, mas um ano depois tive a imensa sorte de ter gasto dois euros no Euromilhões. Era um Jackpot no valor de 120 milhões e fui o único totalista – Carla continuava sem perceber nada, imóvel a olhar para ele, desviou o olhar mais uma vez para a moldura, Rodrigo continuou a sua história – Felizmente tenho juízo e não me deslumbrei com tamanho valor, rodeei-me de pessoas competentes e ao fim de dois anos decidi investir neste grupo empresarial, sou o sócio maioritário e felizmente as coisas têm estado a correr bem, temos clientes nos 5 continentes, empregamos muita gente e parece-me que vamos continuar com muito trabalho nos próximos anos.

Carla não sabia o que dizer, mas o seu raciocínio rápido entrou em ação, sentia-se profundamente enganada – Porque me mentiste? Porque nunca me contaste nada disto? – disparou um pouco agitada.

– Carla – começou Rodrigo calmamente – tens noção das pessoas que se aproximaram de mim por interesse nos últimos anos? Foram muitas – continuou – dei por mim com a necessidade de conhecer pessoas na Internet que não soubessem nada de mim, queria um amigo verdadeiro, mas surgiste tu! Senti-me atraído por ti, no entanto decidi esconder-te este meu lado, aluguei aquele cubículo para passar a imagem pretendida aos teus olhos, simulei que estava desempregado e na penúria, queria conquistar-te pelo que sou e não correr riscos que te aproximasses de mim pelo dinheiro.

– És mesmo estúpido – vociferou ela levantando-se – não te quero ver mais, nem às tuas mentiras – pegou na mala e saiu disparada da sala, passou pela tal Mónica, mas nem a olhou, sentia as lágrimas quase a saltarem-lhe dos olhos – que grande canalha este gajo me saiu – pensou enquanto premia consecutivamente o botão do elevador – mentiroso, estupido – e as lagrimas começaram a rolar com intensidade, nesse momento Rodrigo alcançou-a abraçando-a – Tem calma, por favor não fiques assim.

– Larga-me, pensavas o quê?! – gritava - Que me mentias estes meses todos e agora ficava tudo bem? És um estupido!

Rodrigo estava desorientado, no seu íntimo tinha feito tudo isto com a melhor das intenções, amava-a e não a queria perder por nada deste mundo – Escuta-me, tu já me conheces, ainda ontem me disseste que gostas de mim… então?! Eu sou exatamente a pessoa que tu conheces, mas com uma vida um pouco diferente do que julgavas.

À sua frente Carla continuava a chorar, entretanto o elevador chegou e as portas abriram – Anda, vem comigo – pediu Rodrigo, entraram no elevador e ele premiu o botão do 7º piso, ao chegarem Carla verificou estar numa espécie de bar que deduziu servir os funcionários da empresa, ele puxou delicadamente a sua mão e encaminhou-a para uma mesa – Queres um chá? – ela não conseguiu responder, mas assinalou um sim com a cabeça, Rodrigo fez o pedido e sentou-se ao seu lado com ar preocupado.

– Porque me fizeste isto? – Questionou novamente com as lágrimas nos olhos.

– Possivelmente porque sou um parvo, mas não queria magoar-te. Repara, inicialmente convidei-te para tomar café sem qualquer objetivo, apresentei-me daquela forma porque estava farto de pessoas interesseiras, entretanto o tempo foi passando e quando reparei já estava completamente apanhadinho por ti e enterrado numa mentira até ao pescoço! Mas juro-te que sou a pessoa que conheces, sem tirar nem pôr, além disso gostaria que viesses trabalhar numa das empresas do grupo, não por cunha, mas porque entretanto fiquei a saber quais são as tuas capacidades. Aceitas?

– Não sei! Não me sinto à vontade nesse papel. E em relação a ti fiquei muito desconfiada, quem mente numa coisa, pode mentir em muitas outras – o chá chegou, ainda o provou, mas não conseguiu beber quase nada pois sentia um nó no estomago – Bem, vou andando – disse enquanto pegava na sua mala.

– Eu ligo-te mais logo.

– Não. Não quero. Preciso de tempo e preciso de espaço. Se de facto quiseres falar comigo, tenta daqui a uns dias – olhou-o ainda uma última vez, notou condoída que ele estava com um olhar genuinamente arrependido e triste, mas não se deteve – Adeus – e dirigiu-se para o elevador.

--//--

– Então?! Não vais abrir o presente? – perguntou Rodrigo visivelmente bem disposto – É simples mas achei adequado para comemorar este dia – hoje fazia 3 anos que se tinham beijado à beira rio, Carla não tinha decorado a data e sentia-se um pouco envergonhada com isso. Enquanto olhava o embrulho, mentalmente tinha percorrido tudo o que tinham vivido juntos desde esse dia, estava de sorriso estampado no rosto.

Desviou o olhar da pequena caixa e olhou-o nos olhos, adorava-o de coração! E pensar que esteve um mês sem lhe atender o telefone, não lhe abriu a porta e deitou fora todos os presentes que lhe enviou durante esse tempo, nem os abria, limitava-se a assinar a folha da empresa de entregas urgentes, via o remetente e colocava tudo no lixo diretamente.

Não conteve uma pequena gargalhada, colocou o presente de lado, levantou-se do confortável cadeirão do seu gabinete e dirigiu-se a ele com sorriso trocista – Não, não vou abrir o presente, sabes bem que não estou contigo por dinheiro seu tolinho – beijou-o ternamente – O meu presente na vida és tu, o meu príncipe encantado!

E foram felizes para sempre!

* Não, não é um erro ortográfico, Curricula é o plural de Curriculum Vitae

** Obviamente o nome da empresa foi inventado, espero que não exista nenhuma com o mesmo nome.


2 comentários:

  1. Olá.
    Tu és mesmo romântico!
    E eu que pensáva que só as mulheres é que tinham essas fantasias...

    Beijinhos

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    1. HAHAHAHA
      Olha lá. Just, estás a insinuar que sou gay?!
      :)
      Agora a sério, eu acho que os homens e as mulheres são muito mais parecidos do que parece!
      De qualquer forma, esta história foi escrita tendo uma personagem principal feminina... é natural que me tenha esforçado para o enredo ficar um pouco mais virado para aí... mas sim, sou romântico q.b. e não me envergonho disso.
      :D

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