A Bíblia


Antes de mais sinto a necessidade de esclarecer que este texto não pretende beliscar minimamente a crença de ninguém, vou abordar alguns factos que eventualmente podem ser considerados ofensivos por algumas correntes religiosas, no entanto o objetivo não é esse, conheço algumas pessoas que seguem as religiões que vou mencionar e considero-as sérias e integras, pelo que este texto deverá ser encarado somente como um artigo de opinião que nos faça pensar a todos, nada mais do que isso.

Esclareço também que não me considero nenhum especialista na Bíblia, longe disso, no entanto, com os poucos conhecimentos que tenho e tendo em conta que o 25 de Abril de 1974 já foi há uns anos, tomo a liberdade de emitir a minha opinião baseado no que para mim faz lógica.

Feito o aviso e como a maioria das pessoas saberá, a Bíblia é composta por vários livros divididos em dois grupos: o Antigo Testamento e o Novo Testamento (antes e depois de Cristo).

Ora, em primeiro lugar sou da opinião que por muito valor que a Bíblia tenha (e tem), deve ser lida de acordo com a época em que foi escrita e para quem foi escrita, pois os conhecimentos que o Homem tinha sobre a realidade que o rodeava eram muito diferentes do que temos hoje, assim, e sem beliscar os valores transmitidos pela Bíblia, penso eu que teremos de a interpretar levando isso em conta.
                                                                                                                                                                                                                                                  
Além do mais, o Deus que é descrito no antigo testamento é um Deus tenebroso, um Deus que funciona à base do chicote para a malta andar na linha, lá está, foi necessário apresentar esse Deus ao povo daquela época da forma como tinham capacidade de o entender, não esqueçamos que foi através de Moisés que se apresentou pela primeira vez a ideia de um Deus único, até aí só tínhamos religiões politeístas que incluíam deuses poderosos como o deus da guerra, deus do vento, deus do fogo, etc.

De referir também que na base da mensagem de Moisés, está uma mensagem integra e que resistiu ao tempo (os 10 mandamentos), no entanto para além desses 10 mandamentos encontramos também ideias absurdas que serviam somente para manter na linha o povo rude da época (ao ladrão cortar a mão com que roubou, apedrejar uma mulher adultera até à morte e outras coisas que não nos fazem sentido nenhum), só por este exemplo já vemos o que terá sido escrito por inspiração divina e o que foi escrito para manter a ordem na época.

Mais tarde Jesus avançou mais, falou pela primeira vez num Deus de amor e também na ideia de penas e recompensas depois da morte, de acordo com o que cada um fez enquanto cá andou.

De realçar que Jesus não fundou nenhuma religião, ao contrário do que muitas vezes é apontado através do Evangelho de Mateus onde podemos ler “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mateus 16:18 – segundo a tradução constante na Nova Bíblia dos Capuchinhos), esse trecho é um pouco estranho, não aparece em mais nenhum evangelho e surge ali como que caído do ar, levantando algumas dúvidas sobre se esse pequeno trecho não terá sido alterado por forma a puxar a brasa à sardinha que dava mais jeito!

E aqui começa a minha critica em relação à Bíblia…

Atualmente existem milhares de denominações cristãs distintas (não é exagero, basta fazer uma pesquisa), sendo que em muitas delas os textos da Bíblia vão sendo traduzidos com pequeninas alterações por forma a mostrar que Deus está do lado deles, ou seja, eles é que estão certos e os outros estão todos equivocados… e depois apoiam-se no valente argumento de que aquilo é a palavra de Deus.

Mas não é!

No intuito de exemplificar a minha opinião vou basear-me em alguns factos distantes no tempo:

O termo Igreja nos primeiros tempos de cristianismo tinha um significado completamente diferente dos dias de hoje, a palavra Igreja que hoje consideramos como uma instituição, deriva da palavra Ecclesia que significava originalmente curral ou abrigo de ovelhas, ora como os cristãos se consideraram os cordeiros de Deus, passou a ser utilizado na reunião de pessoas cristãs, daí a existência das cartas de Paulo à Igreja dos Efésios, dos Gálatas, dos Coríntios.

Outra coisa que se verificava é que existiam igrejas com versões da Bíblia diferentes (ou seja, entre elas continham alguns livros distintos), mas no século III aquando da fundação da Igreja Católica Apostólica Romana ficou decidido quais os livros que ficavam e quais os que eram retirados, originando a versão que conhecemos hoje.

O curioso é que muitos dos cristãos da época aceitavam a ideia de reencarnação, mas esta ideia foi considerada apócrifa (falsa) e retirada da Bíblia no II Concilio de Constantinopla, tudo isso por causa de uma mulher!

Na época o imperador justiniano era casado com Teodora que tinha sido uma cortesã, a senhora como não queria que as antigas colegas de profissão lhe estragassem a imagem perante o povo, mandou mata-las a todas (quinhentas ao que se julga) e assim foi feito, mas entretanto e para se livrar da consequência desse ato numa outra vida, decidiu convencer o marido a influenciar os trabalhos do concilio de forma a que a ideia de reencarnação fosse considerada apócrifa (pobre criatura, como se a alteração de textos mudasse alguma coisa de facto!) e conseguiu.

No entanto o gato ficou escondido com o rabo de fora e embora essa ideia tenha sido banida da Bíblia, podemos encontrar muitos trechos que apontam para a reencarnação.

Como exemplo e aproveitando para demonstrar que as diferentes traduções podem passar significados completamente distintos, mostro-vos a seguinte passagem do livro de Job:

“Quando o homem morre uma vez, e o seu corpo, separado do espírito, é consumido, em que se torna ele? Tendo o homem morrido uma vez, poderia ele reviver de novo? Nesta guerra em que me encontro, todos os dias de minha vida, estou esperando que chegue a minha mutação.” (Job 14:10-14 segundo a tradução de Louis-Isaac Sacy)

“Quando o homem morre, perde toda a sua força e expira: depois, onde está ele? Se o homem morre, tornará a viver? Esperarei todos os dias de meu combate, até que chegue a minha transformação?” (Job 14:10-14 segundo a tradução protestante de Osterwald)

“Quando o homem está morto, vive sempre; findando-se os dias da minha existência terrestre, esperarei, porque a ela voltarei novamente” (Job 14:10-14 segundo a tradução da Igreja Grega)

“Mas o homem, ao morrer, acaba. O mortal expira e onde está ele? As águas poderão desaparecer do mar e um rio, esgotar-se e secar. Mas o homem que morre nunca mais se levanta; enquanto durarem os céus não despertará, nem sairá do sono. Oh! Se me escondesses na mansão dos mortos e me ocultasses, até se aplacar a tua cólera! Se me fixasses um limite para te lembrares de mim! Acaso voltará a viver um homem morto? Esperaria todo o tempo do meu combate até que me viessem render.” (Job 14:10-14 segundo a tradução constante na Nova Bíblia dos Capuchinhos)

Para além das traduções serem muito diferentes, vemos que algumas parecem apontar para a existência de uma só vida, mas outras sugerem que existem várias, sendo a tradução da Igreja Grega a mais clara nesse sentido com a passagem “findando-se os dias da minha existência terrestre, esperarei, porque a ela voltarei novamente”!

Outro exemplo:

“Entre os fariseus havia um homem chamado Nicodemos, um chefe dos judeus. Veio ter com Jesus de noite e disse-lhe: «Rabi, nós sabemos que Tu vieste da parte de Deus, como Mestre, porque ninguém pode realizar os sinais portentosos que Tu fazes, se Deus não estiver com ele.» Em resposta, Jesus declarou-lhe: «Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer do Alto não pode ver o Reis de Deus.» Perguntou-lhe Nicodemos: «Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura poderá entrar no ventre de sua mãe outra vez, e nascer?»
Jesus respondeu-lhe: «Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. Aquilo que nasce da carne é carne, e aquilo que nasce do Espírito é espírito. Não te admires por Eu te ter dito: Vós tendes de nascer do Alto. O vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito.» (João 3:1-8 segundo a tradução constante na Nova Bíblia dos Capuchinhos).
                                                                                                                                                    
Algumas traduções colocaram Espirito Santo no lugar de Espírito como estava no original, e só isso já faz uma grande diferença, mas vamos analisar esta mesma passagem segundo outra tradução:

“E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele. Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?
Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.” (João 3:1-8 segundo a tradução protestante de Osterwald)

Já repararam que aqui o dialogo faz mais sentido? Reparem também nas palavras de Jesus: “aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”, e mas à frente: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito”.

Mas podemos ir mais longe, naquele tempo os conhecimentos que se tinha sobre as leis da natureza eram muito limitados (mesmo muito) relativamente aos que temos hoje, acreditando-se então que a Terra teria surgido das águas, a água era considerada como o elemento que gerava tudo, assim as palavras “aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”, significaria na época que se o homem não nascer com corpo e alma não pode entrar no reino de Deus.

No entanto Jesus vai ainda mais longe quando afirma “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.” Isto deixa uma mensagem muito curiosa, tal como nós não sabemos de onde o vento veio, nem para onde vai, assim é com o espírito, deixando subentendido que o espirito já existe antes do nascimento e continua depois da morte.

Por fim, e para não tornar este texto demasiado fastidioso, apresento-vos mais um exemplo (entre muitos outros que podem investigar):

“Desde o tempo de João Baptista até agora, o Reino do Céu tem sido objeto de violência e os violentos apoderam-se dele à força. Porque todos os profetas e a Lei anunciaram isto até João. E, quer acrediteis ou não, ele é o Elias que estava para vir. Quem tem ouvidos, oiça!” (Mateus 11:12-15 segundo a tradução constante na Nova Bíblia dos Capuchinhos)

Não sei se reparam que os profetas indicavam que Elias regressaria antes da vinda do Mestre, e aqui Jesus diz aos apóstolos que João Baptista é o Elias que estava para vir, acrescentando “Quem tem ouvidos, oiça!”, ou seja, mais ou menos como quem diz: notem bem o que estou a dizer nas entrelinhas!

Dá que pensar não dá?

Mas como hoje me está a apetecer escrever muito, vou falar ainda sobre as alterações feitas à Bíblia com o objetivo de puxar a palavra de Deus para aquilo que mais convém segundo a crença de cada um:

Em 1857 surgiu uma filosofia que dá pelo nome de Espiritismo, ora Allan Kardec (pseudónimo de Hipollite Rivail, pedagogo e investigador muito conceituado na época), ao publicar O Livro dos Espíritos apresenta duas palavras novas que não existiam até então, foram elas, Espiritismo e Espirita (ou seja, o nome da filosofia e o nome dos seguidores da mesma), tendo o cuidado de colocar na introdução o significado de cada uma dessas palavras (para palavras novas, definições novas).

Curiosamente essas mesmas duas palavras ao longo dos anos foram sendo conotadas a outras coisas que nada tem a ver com a definição original (até os dicionários são um infeliz exemplo disso mesmo), mas adiante, neste ponto o leitor deve estar-se a questionar sobre o que terá isto a ver com a Bíblia, certo? 

Pois bem, quer se concorde ou não com as ideias apresentadas pela filosofia espírita, esta quando surgiu em meados do século XIX veio abanar a estrutura das principais religiões cristãs existentes, pelo que passou a ser um alvo a abater, assim podemos encontrar por exemplo no livro Deuteronómio a seguinte passagem:

“Não se deve achar em ti alguém que faça seu filho ou sua filha passar pelo fogo, alguém que empregue adivinhação, algum praticante de magia ou quem procure presságios, ou um feiticeiro, ou alguém que prenda outros com encantamento, ou alguém que vá consultar um médium espírita, ou um prognosticador profissional de eventos, ou alguém que consulte os mortos.” (Deuteronómio 18:10-11 segundo a tradução de uma Bíblia dos Testemunhas de Jeová).

Já numa tradução Católica:

“Ninguém no teu meio faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha; ou se dê a encantamentos, aos augúrios, à adivinhação, à magia, ao feiticismo, ao espiritismo, aos sortilégios, à evocação dos mortos” (Deuteronómio 18:10-11 segundo a tradução da Nova Bíblia dos Capuchinhos).
 
Fui buscar isto porque acho uma alteração grave (entre muitas outras) à Bíblia, vejamos:

Calcula-se que a primeira redação do livro Deuteronómio tenha sido realizada em meados do séc. VII a.C. sendo que a versão final data do séc. V-IV a.C.

Acontece que as palavras espiritismo e espírita foram inventadas em 1857 (como escrevi atrás), logo é impossível que tenham sido escritas no Deuteronómio 18 tantos séculos antes! E a prova disso mesmo é que qualquer Bíblia anterior a 1857 não continha essas palavras!

Mas então, o que será que foi escrito originalmente?

Socorrendo-me de um estudo feito por Severino Celestino ao Deuteronómio 18, apresento-vos o mesmo texto na versão original:
 
E novamente o mesmo texto Hebraico, mas nos caracteres que utilizamos:

“ki ata ba él-haaréts asher Iahvéh Eloheichá noten lach lô tilmad la’assôt kto’avôt hagoim hahém. Lô-imatzê bechá ma’avir benô-uvitô baêsh kôssen ksamim me’onem umnachêsh umchashêf: vchover chaver vshoêl ôv veid’oni vedorêsh el-hametim”.

Tradução Literal:

ki = quando; atá = tu; bá = fores, chegares ou entrares; él-haárets = na terra; asher = a qual; Iahvéh = nome próprio dado a Deus; Eloheichá = teu Deus; noten lach = te dá; lô tilmad = não aprendas; la’assôt = fazer; kto’avôt = sujeiras, manchas, abominações; hagoim hahém = daquelas nações estrangeiras; lô-imatzê bechá = não se achará em ti; ma’vir benôuvitô = quem faça passar seu filho ou sua filha; baêsh = pelo fogo; kossen = nem encantador; ksamim = nem feiticeiros; me’onem = nem agoureiro; umnachêsh = nem cartomante; umchashêf = e nem mágico, bruxo ou feiticeiro; vchovêr = nem mago; vechavêr = e semelhante; vshoêl ôv = nem quem consulte o necromante, o mágico ou feiticeiro; veid’oni = e o mágico e o adivinho; vedorêsh = e quem exija a presença; el-hametim = dos mortos.

Expressão Traduzida Resultante do Original Hebraico:

“Quando entrares na terra que Iahvéh, teu Deus, te dá, não aprendas a fazer as abominações daquelas nações. Não se achará entre ti quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, nem adivinhador, nem feiticeiros, nem agoureiro, nem cartomante, nem bruxo, nem mago ou semelhante, nem quem consulte o necromante e o adivinho, nem quem exija a presença dos mortos”

Como se pode constatar e como seria de esperar pela lógica, nem a palavra espírita nem espiritismo aparecem.

Tudo o que está escrito, tanto os adivinhos, como os feiticeiros, os agoureiros, cartomantes, bruxos, magos ou semelhantes e até quem exija a presença dos mortos, também os espíritas não concordam, nem o fazem!

Mas a ignorância vai tão longe, que na passagem do Deuteronómio que vos apresentei na versão dos Testemunhas de Jéova, contém um erro ainda mais grave, pois escreveram: “(…)ou alguém que vá consultar um médium espírita (…)”.

A palavra médium designa o que estará no meio entre o mundo físico e o suposto mundo espiritual, e médium não é aquilo que vulgarmente as pessoas imaginam, pois médium somos todos (por exemplo, quem nunca teve uma premonição que se concretizasse?), no entanto estamos habituados a chamar médium a pessoas que tenham essa característica de uma forma mais ostensiva.

Então existem médiuns que são ateus, outros são católicos, outros são budistas, etc… sendo que a esmagadora maioria dos médiuns não sabe que o são, ou seja, o que aquela versão da Bíblia está a dizer é para não consultar um médium espírita, colocando-nos à vontade para consultar outro médium qualquer… ridículo!

E já que escrevi sobre isto, para terminar vamos analisar o que dirá a Bíblia sobre as supostas comunicações com os que já partiram:

Muitas das religiões consideram que a suposta comunicação entre os vivos e aqueles que já morreram é impossível, no entanto outras consideram que foi proibida por Moisés (se foi proibida, já nos dá a ideia de que seja possível), outras até acham ser possível, mas consideram que quem está do lado de lá a comunicar não são os que já partiram, mas sim o diabo a enganar a malta… e dão argumentos ferozes e por vezes retorcidos para defender isto.

É estranho, pois Jesus no alto do monte Tabor (no episodio da transfiguração) falou com Elias e com Moisés que já tinham morrido à séculos! Como é isto? Seria o diabo a enganar Jesus?!

E nesta passagem: “Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus” (1ª carta de João 4:1 segundo a tradução da Nova Bíblia dos Capuchinhos), fica entendido que não existem espíritos só do diabo, pois caso contrário não valia a pena examinar se os espíritos são de Deus, certo?

Além do mais, não aceito que o diabo possa existir, para mim Deus é algo que não consigo compreender e a lógica impede-me de aceitar a existência de um Deus antropomórfico, mas no entanto acho que Deus existe, pois o nada não cria coisa alguma e algo teria de existir antes do Big Bang, e antes disso, e antes disso, e antes disso… ora se Deus é único e é perfeito em todas as características que conhecemos e que desconhecemos, não poderia permitir um ser eternamente devotado ao mal, mas também não poderia ter uma entidade que lhe fizesse frente, pois dessa forma deixava de ser único e não era Deus!

Só para cultura geral: a palavra demónio deriva da palavra daimon de Socrates, e em Grego daimon significa espírito, no entanto com o decorrer do tempo a palavra ganhou uma conotação negativa, passando a designar os espíritos menos evoluídos, maus, perversos (aqueles que Jesus expulsava das pessoas aliviando-as), ainda mais tarde derivou para a palavra demónio, o Homem e os anos escuros da Idade Média fizeram o resto.

Ainda sobre a proibição de Moisés:

“Moisés saiu e disse ao povo as palavras do SENHOR; juntou setenta homens dos anciãos do povo e pô-los à volta da tenda. O SENHOR desceu na nuvem e falou-lhe; tomando do espírito que estava sobre ele, deu-o aos setenta anciãos. Quando o espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas depois não conseguiam. Dois desses homens tinham ficado no acampamento. O nome de um era Eldad e o nome do outro era Medad. O espírito desceu também sobre eles, porque estavam entre os inscritos, embora não tivessem ido para a tenda, e começaram a profetizar no acampamento. Um rapaz, porém correu a anunciar isso a Moisés: «Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento.» Então Josué, filho de Nun, servo de Moisés desde a juventude, ripostou: «Moisés, meu senhor, não lho consintas.» Respondeu-lhe Moisés: «Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do SENHOR profetizasse, que o SENHOR enviasse o seu espírito sobre ele!» Voltou Moisés para o acampamento, ele e os anciãos de Israel” (Números 11:24-30 segundo a tradução da Nova Bíblia dos Capuchinhos).

Pois muito bem, não vou analisar se as comunicações são ou não possíveis, mas convenhamos que Moisés não as proibiu, caso contrário não diria “Quem dera que todo o povo do SENHOR profetizasse, que o SENHOR enviasse o seu espírito sobre ele!” Assim, o que ele terá proibido foi o abuso e a futilidade, pois naquela época era hábito recorrerem às comunicações para saber se deveriam vender a junta de bois, se a filha deveria casar com determinado homem, se o negócio iria correr bem… enfim, aquilo que os médiuns comerciantes fazem nos dias de hoje, e foi só isso que ele proibiu, como penso que é bem claro na passagem que transcrevi acima.

E em termos gerais, é esta a minha opinião sobre a Bíblia, mais uma vez afirmo que é um livro cheio de valor, mas que se deve ser lido com espírito critico e não levar tudo à letra “(…) porque a letra mata, enquanto o espírito dá a vida.” (2ª Carta aos Coríntios 3:6 segundo a tradução da Nova Bíblia dos Capuchinhos).

Se leu este artigo até aqui, o meu obrigado e parabéns pela paciência, sei que terei sido uma seca, mas apeteceu-me escrever sobre este tema e uma coisa levou à outra.

Os comentários (mesmo que contrários à minha opinião) serão bem vindos, no entanto e como sei que este tema pode eventualmente ofender algumas pessoas, aviso que só serão publicados aqueles que sejam escritos dentro das regras da boa educação, sem ataques ou palavrões (gato escaldado de água fria tem medo e lembro-me bem do que já passei há uns anos num contexto parecido noutro local da Internet).



2 comentários:

  1. Anónimo5.5.14

    Olá Francisco!
    Sim, li tudinho. Não li a bíblia toda, nem grande parte, conheço algumas passagens...e concordo quando dizes que não se pode levar aquilo à letra, pois foi escrita num contexto totalmente diferente do actual.
    O mal é mesmo as pessoas não usarem o bom senso e acreditarem piamente naquilo: segundo a avó do meu marido, com 83 anos, as pessoas antes duravam muito mas muito mais tempo, centenas de anos! E isso deve-se apenas ao facto do tempo ser contado de forma diferente, uma vez que o nosso calendário gregoriano apenas surgiu em 1582, promulgado pelo Papa Gregório XIII a 24 de Fevereiro desse ano.
    Mas explicar isto a uma pessoa com a 4ª classe e com mais de 80 anos?! Não, na cabeça dela nós agora vivemos muito menos porque pecamos e estamos a ser castigados por Deus (ela é protestante, mas não entendo bem, pq tb vai às reuniões dos evangélicos).
    ....................
    Quanto a mim, não acredito em nada disto. A Igreja é feita por homens para controlar os homens. Por cada vez mais termos mais acesso à educação, e consequentemente, usamos mais o cérebro e procuramos esclarecer-nos, a Igreja tem perdido devotos. Não tem sabido actualizar-se, não está próxima das pessoas...pelo menos parece que isso está em mudança com o Papa Francisco :)
    Eu, não vou a qualquer espécie de culto. Acredito que existe algo poderoso e especial, que originou tudo isto, mas posso chamar-lhe Naureza, que acho que não ofendo ninguém!
    Ah, esse algo poderoso, também me deu a possibilidade de pensar por mim mesma, deu aos homens o poder de criarem coisas, de evoluirem, portanto, mesmo os erros que a humanidade comete são erros "naturais", pois cada pessoa tem o livre arbítrio da sua vida (o que influencia as demais à sua volta).
    Portanto, acho que tudo o que é demais enjoa, fanatismos não trazem bons resultados, como a história demonstra...importante é mantermo-nos nas velhas máximas que "a minha liberdade termina onde começa a dos outros", "não matar, nem roubar...", ou seja "respeitar aos outros como a mim mesma" e acrescento, tratando-os como desejo ser tratada.

    Gosto dos teus textos, continua. Beijinhos!

    Sofia Felizardo

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    Respostas
    1. Obrigado Sofia.

      Gostei do teu comentário. Sim, qualquer tipo de fanatismo é mau, Infelizmente está presente em muitos contextos religiosos e até nos ateus... conheço alguns que são fanáticos na defesa da ideia do nada :)

      Com o passar dos séculos tenho esperança que as diferentes formas de pensamento se refinem e tenham tendência para o respeito mútuo.

      Beijinhos.

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