Gosto de ti

Bruno tirou o maço de tabaco do bolso, enquanto olhava distraidamente os carros a passar na rua lá em baixo, abriu o maço com o automatismo originado pelo hábito e sempre sem olhar retirou um cigarro, levou-o à boca, pegou no isqueiro, acendeu-o e em ato continuo aproximou a chama à extremidade do cigarro, puxou o fumo e inspirou sentindo o fumo a arranhar suavemente a garganta.

Ao mesmo tempo que expirava a névoa resultante, desviou o olhar da estrada e olhou para uma caleira do prédio em frente, não o fez por motivo nenhum em especial, mas estava habituado a pensar enquanto fumava e tinha tendência para vaguear o olhar.

Caraças – pensou – como é que isto foi acontecer? – e como um homem também chora deixou cair uma lágrima que rapidamente se transformou num choro compulsivo como nunca lhe tinha acontecido, dobrou as pernas e ficou de cócoras, cabeça baixa a ver o cigarro queimar, enquanto soluçava sem controlo.

Após libertar as suas mais intimas emoções e um pouco de nada mais calmo, fez de forma a que a parte restante do cigarro ficasse preso entre o polegar e o dedo médio que estava a fazer pressão sob o primeiro – isto é algo que tem de acabar – e num gesto de revolta contra o tabaco, solta o dedo médio com força e o cigarro saí disparado para longe.

Pôs-se de pé, saiu da varanda, pegou na chave do carro, na carteira e seguiu em direção à garagem, enquanto o elevador descia sentiu uma angustia no seu peito, uma angustia forte e um pensamento tolo surge-lhe na mente, mas enviou-o embora resoluto.

Chegou ao menos dois, dirige-se ao carro e faz como de costume, põe o cinto, coloca o carro a trabalhar e arranca, já na subida íngreme entre o piso menos um e o r/c, a angustia aperta-lhe o peito novamente e veio-lhe uma pessoa à mente, abana levemente a cabeça, respira fundo e liga o rádio – que parvoíce, agora nesta idade é que me dá para ter pensamentos parvos – pensou, e ao sair do parque virou à esquerda, seguiu em velocidade reduzida em direção ao semáforo que estava vermelho, não tinha ninguém à sua frente, sensivelmente a vinte metros do semáforo, cai o verde, acelera, mete a terceira, passa pelo semáforo e só tem tempo para sentir um movimento rápido vindo da sua esquerda, um forte impacto aconteceu…

Abriu os olhos e percebeu que devia ter estado inconsciente, ao seu lado tinha uma profissional de saúde que fala com ele – não se preocupe que vai ficar bem – ouviu – não feche os olhos, fale comigo, como se sente? – confuso Bruno tomou consciência da pior dor que sentira em toda a sua vida, quis gritar, quis falar mas não conseguia, sentiu a sua camisa empapada no que devia ser sangue e só teve força para gemer, no seu cérebro meio atordoado veio-lhe à cabeça que podia eventualmente estar a morrer e agitado lembrou-se de uma pessoa, não uma pessoa qualquer, lembrou-se da única pessoa que lhe fazia sentido lembrar nesse momento!

Numa fração de segundo reviu os mal entendidos tolos, as imaginações fúteis e ciumentas, as discussões inúteis baseadas em coisas sem qualquer valor, sem sentido, as falhas de comunicação estúpidas, ampliadas pelo orgulho ferido através daquilo que entendemos que o outro disse e não pelo que o outro disse ou quis dizer de facto… condoeu-se, no seu estado pré-moribundo conseguia ainda assim manter uma lucidez acutilante sobre o tema – e se eu parto sem fazer as pazes? – pensou enquanto fechava os olhos.

– Olhe para mim – disse a médica com uma rispidez meiga – não é hora para dormir, vá, ajude-nos, você vai ficar bem, acredite – Bruno abre novamente os olhos, percebe que a equipa de socorro se encontra à sua volta a fazer coisas que não entende, mas apercebe-se de que com os olhos abertos a dor é mais forte, tão forte… inclina o olhar para a médica que falava com ele e admirou-se com o rosto que viu, deu um leve sorriso e num esforço tremendo agarrou-a com a gentiliza que conseguiu, puxou-a para si e segredou-lhe ao ouvido, de seguida e como aliviava a dor com os olhos fechados, fechou-os mesmo, não ligando a mínima para as instruções que lhe estavam a dar – que alivio – pensou – e deixou-se ficar a sentir aquela dor cada vez mais distante.

Perdemos – disse a Marta encarando o seu colega de turno, este, que já a conhecia há bastante tempo, percebendo que a sua colega estava com uma tristeza no olhar diferente do habitual, pergunta-lhe – o que te disse o senhor antes de partir?

- Gosto de ti. E tratou-me por outro nome que não o meu, possivelmente disse-me o que gostaria de ter dito a outro alguém.


2 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá anónimo(a), bem vindo(a)!
      Fiquei sem ter a certeza se não gostou da história ou se a achou triste...
      Se não gostou, não posso fazer nada :)
      Caso a tenha achado triste... nem todas as histórias podem acabar bem... é conforme me apetece na altura em que escrevo!
      Vá passando por cá.

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