Olá, queres ter um flash?


Sim, fui ver este concerto e este foi o bilhete com o qual acedi ao recinto, foi no dia 16 de junho de 1993 no antigo estádio de Alvalade, em Lisboa.

É possível que algumas pessoas fiquem algo surpresas por um rapaz ajuizado como eu ter ido assistir a tal evento, mas a verdade é que gosto de todo o tipo de música e na época não podia perder tal oportunidade.

Imaginem-me bastante mais magro, com 19 anos e a ir para um concerto de alto risco... completamente sozinho!! Para vos colocar dentro do contexto esclareço que a malta que os Metallica arrastavam atrás de si na época tem pouco ou nada a ver com os dias de hoje (era mais malta da pesada).

Assim, e para passar despercebido a minha indumentária nesse dia foi uns ténis All Star pretos, umas calças de ganga velhas, uma t-shirt preta com o desenho de uma caveira trespassada em cruz por duas guitarras elétricas e por baixo do referido desenho umas letras vermelhas que formavam as palavras Toxic Rock, por fim levava uma pequena mochila preta às costas com umas sandes e água.

No referido concerto tentaram vender-me todo o tipo de drogas e eu armado em tolo dizia sempre que tinha (táticas de adolescente), qualquer coisa que me ofereciam eu respondia invariavelmente com um obrigado, seguido de um tenho aqui na mochila!

Para terem uma ideia da figura idiota que fiz, conto-vos que todos foram revistados duas vezes antes de entrar no recinto, o primeiro desses pontos de controlo era mais apertado, o que criava filas enormes, lá me coloquei na fila e reparei que bastante à minha frente estava um tipo com um mau aspeto extremo aos gritos, aparentava estar com um grande estalo naquela cabeça e para ajudar à festa, estava com uma garrafa de 1,5 l de água do luso, mas cheia de vinho tinto. 
Os seguranças não o deixaram entrar com a garrafa (não percebi a razão, mas só podiam entrar garrafas de 0,25), ele protestava e queria entrar com a garrafa porque o vinho era dele, etc, até que foi confrontado com uma escolha simples: 
Já que não podia entrar com a garrafa, ou a deixava ali, ou bebia tudo antes de entrar, ao que ele responde alto e bom som - ENTÃO BEBO TUDO AQUI - saiu da fila, encostou-se a uma rede que existia ali e vai disto (a beber com vontade).

A fila foi avançando e o tipo não se meteu com ninguém, à medida que vou ficando mais perto, reparo com pena que aqueles braços estavam uma lástima, todos picados (consumidor de drogas injetáveis) até que quando faltavam duas pessoas para chegar a minha vez, o rapaz desencosta-se da rede, vem direito a mim aos tropeções e com a garrafa já meio bebida oferece-me o seu precioso liquido:

- Olha lá óh bacano, queres provar do meu vinho?

Eu lá tentei disfarçar o incomodo que o hálito forte a vinho me estava a causar, coloquei o meu melhor sorriso e digo-lhe – obrigado, eu também tenho uma igual aqui na mochila.

Surpresa das surpresas, o rapaz ofendeu-se, fica bravo e começa aos gritos comigo – ESTÁS ARMADO EM RESMENGA ÓH PALHAÇO?! EU TENHO SIDA MAS ISTO NÃO SE PEGA ASSIM…

Felizmente nesse momento chegou a minha vez, escapuli-me para os seguranças fui revistado e tive de esvaziar a minha mochila todinha para lhes provar que não tinha nenhuma garrafa de 1,5 (eles tinham ouvido a conversa!).

Ainda assim, continuei com a mesma tática e sempre que me ofereciam qualquer coisa eu respondia que já tinha, até que no intervalo entre os Cult e os Metallica acontece o maior mistério da minha vida!!

Uma miúda com bom ar, um pouco mais baixa que eu, cabelo curto, loira, aspeto a puxar para o tiazoca de Cascais (o que por si só já era muito estranho ali no meio dos chungas), t-shirt branca com algo escrito que não me recordo, vem direita a mim a sorrir e pergunta:

- Olá, queres ter um flash?

Durante uma fração de segundo, mentalmente questiono-me que raio seria um flash, talvez fosse algum ácido ou uma pastilha qualquer psicotrópica e como tal respondo – Obrigado, eu também tenho aqui na mochila.

Naquele momento o sorriso da miúda desapareceu, algo confusa, a expressão passou a ser um misto de surpresa e gozo, disparando decidida e com todo o desprezo – Não era desses, estúpido!! – virou-me as costas e desapareceu no meio da multidão…

Ao menos podia ter explicado o que perdi!


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