O voluntário


António tinha acabado o seu turno, ao seguir para os seus afazeres pessoais foi interrompido pelo colega Elias – Vais de férias hoje?

Sim - respondeu António com visível alegria e emoção – aproveito e vou lá abaixo visitar a minha família!

Lá abaixo onde? – perguntou Elias – Lisboa?

António confirmou com um leve abanar de cabeça e sorriso expressivo.

Boa viagem então, uma interrupção periódica nas nossas responsabilidades também faz bem, aproveita.

Despediram-se calorosamente e seguiram.

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– Clara – gritou Miguel enquanto vestia o casaco – viste a chave do carro?

– Tenho-a aqui comigo, vê se te despachas que já estamos a ficar atrasados.

Enquanto descia rapidamente para o r/c, Miguel refilava consigo mesmo – Mas quem é que se lembra de casar ao Sábado de manhã? As manhãs de Sábado são para dormir! 

Seguiram para a garagem em passo acelerado, Clara passou-lhe a chave em cristal, entraram na viatura, Miguel inseriu-a na consola central iniciando-se o processo de ignição, as luzes do tablier acendem e surgem as palavras Power, seguida de Beauty e por fim Soul, nesse momento o motor dá o seu potente ronco próprio de Aston Martin!


Estavam atrasados e o Miguel aproveitou para puxar pelo potente motor que tinha à disposição.

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No outro lado da cidade, Jorge estava a ultimar a sua rotina diária, os cobertores já estavam cuidadosamente dobrados e guardados juntamente com os cartões que outrora embalaram frigoríficos e fogões, hoje tinha sido uma noite especialmente fria, sabia-lhe bem um café quente, mas não tinha dinheiro absolutamente nenhum, só lhe restava um biscoito que uma criança lhe tinha oferecido por caridade no dia anterior, encolheu os ombros e comeu-o enquanto afagava a barba espessa.

Não vivia na rua por opção e estava já calejado contra o olhar vazio das pessoas apressadas, um olhar que passa por ele e não o vê, um olhar que o torna invisível – que se lixem todos (pensou) – nesse momento o estômago roncou e deu-se conta que necessita de alguns trocos para comer.

Pôs-se a caminho do semáforo habitual.

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O dia estava ensolarado quando António chegou a Lisboa, sentiu a nostalgia a invadir-lhe o ser, reviu a Estação de Santa Apolónia junto ao rio, o Panteão, percorreu rapidamente parte de Alfama e também da Graça, foi até ao Castelo, aí parou e aproveitou a vista revendo a Ponte sobre o Tejo ao lado de parte de Lisboa recortada pela luz matinal. 


Na sua memória afloraram algumas recordações de locais que frequentou, pessoas com quem partilhou os mais variados momentos… sentiu a sua vibração a ficar mais densa, parou e controlou-se, não podia sintonizar com o passado desta maneira.

Instintivamente fechou os olhos e entrou em meditação, lentamente voltou a sentiu-se em equilíbrio, endereçou um agradecimento mental e dirigiu-se para casa.

A rua estava na mesma, infelizmente no espaço de alguns metros viam-se copos de plástico e uma ou outra garrafa vazia, sinal da noite agitada no Bairro Alto.
 
Parou em frente à porta, cruzou-se com uma desconhecida que assumiu ser uma vizinha nova, rapidamente entrou em casa e apanhou a Fernanda a lavar a louça utilizada ao pequeno almoço, feliz abraçou-a.

Olhou-a com atenção, achou-a mais velha do que da última vez, aparentava tristeza, alguma solidão, dirigiram-se para a sala, a televisão estava ligada e reparou que estava a passar um programa cor de rosa qualquer, ela não disfarçou o interesse pelo assunto colocando o som mais alto, ele olhou com mais atenção e percebeu que estavam a falar de um casamento de uma socialite muito conhecida.

Confuso voltou a sua atenção novamente para a Fernanda, quando instintivamente percebeu – a Clara vai ao casamento de certeza – pensou. Nesse momento chegou um SMS, Fernanda leu-o e sem sair das mensagens pousou o telemóvel virado para ele em cima da mesa, num ápice António aproveitou para a ler também: “Ainda não é hoje que consigo ir visitar-te. Depositei um mimo na tua conta, aproveita para comprares algo para ti. No próximo fim de semana tento passar por aí. Bjs, Clara”.

Fernanda estava imóvel de olhar perdido para a televisão, de lá debitavam detalhes sobre o local, os convidados, a ementa, António aproveitou a parte útil da informação, beijou-a docemente na testa e saiu.

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Não tinha sido boa ideia ir para o semáforo habitual, já que mais à frente ficava o palacete onde estava a decorrer uma festa de casamento para pessoas ricas e o trânsito estava condicionado a partir do cruzamento onde se encontrava, ou seja, conseguia estar ali sem que a polícia o importunasse, mas não lhe valia de muito pois só passavam os carros dos convidados e mais ninguém ia para ali hoje.

Estava quase a deslocar-se para outro local quando a tontura veio, sentiu um formigueiro no braço direito e sem hesitações pegou no pequeno lápis velho e usado e no caderno sujo que tinha dentro do bolso do casaco, colocou-se de cócoras encostado ao poste do semáforo, abriu o caderno numa folha em branco, fechou os olhos e escreveu.


Um carro parou no sinal vermelho, lá de dentro Clara observou um mendigo que estava de cócoras no semáforo e condoeu-se da situação em que este se encontrava, desviou o olhar e na tentativa de limpar o súbito incomodo, pegou em 20 euros e passou-os ao Miguel – dá esse dinheiro aquele senhor ali.

Nesse momento já o Jorge se tinha levantado, retirou a folha cuidadosamente pelo picotado, dobrou-a ao meio e dirigiu-se ao veículo, o condutor estava a abrir o vidro e a caminho deste, soou na cabeça de Jorge – dá de graça o que de graça recebeste – mal tinha tido tempo de digerir esse pensamento, reparou na nota na mão do senhor que estava impecavelmente vestido dentro do carro à sua frente, num ímpeto atirou a folha lá para dentro e saiu a correr.

No primeiro momento Miguel assustou-se com o repente do sem abrigo, mas na fração de segundo seguinte reagiu – AMIGO, OLHE AQUI – ainda gritou com a nota na mão – mas o sujeito fugia a sete pés, atónito olhou para a folha encardida que caprichosamente tinha ido parar aos pés da sua amada – não lhe pegues, olha que deve estar cheia de micróbios! – ao mesmo tempo que pensava – o tipo deve ser doido!

O verde acendeu, fez o carro avançar com o seu caraterístico som rouco, entretanto Clara cuidadosamente conseguiu abrir a folha habilmente utilizando a ponta dos seus sapatos, olhou e reconheceu a letra! – ESPERA – gritou, o carro parou abruptamente e ela saiu, mas já não viu o sem abrigo.

Volta ao carro e pega no papel lendo-o atentamente, um segurança aproxima-se pelo lado do condutor e pede os convites, no meio desta sequência de acontecimentos, o Miguel confuso passa os convites – aqui tem – e pergunta à Clara – que se passa?

Nada, depois falamos – dobra a folha e guarda-a – estou indisposta, vai entrando, eu fico aqui a apanhar ar.

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Há muito tempo que não lhe acontecia aquilo, era uma sensação aflitiva, mentalmente deu conta que o braço direito ainda lhe tremia ligeiramente, mas estava quase normal, Jorge não conhecia aquela zona da cidade, espavorido e mantendo-se com fome, virou por intuição na primeira à esquerda, viu uma igreja, entrou, estava vazia, sentou-se na última fila e fitou o altar com o olhar perdido, levou a respiração a fundo, uma e outra vez, fechou os olhos, recordou a sua mãe a ensinar-lhe a rezar, há tanto tempo que isso foi... e há muito tempo que não reza, como era mesmo? – Pai nosso que estais no céu (…)

– O senhor está à espera da sopa? – Jorge assustou-se abriu os olhos e estava um sujeito com ar simpático e sorriso franco junto a si, usava uma t-shirt branca com a inscrição “VOLUNTÁRIO” num tom azul e estava expectante à espera de resposta.

– Sopa? – questionou Jorge.

– Sim – respondeu o simpático senhor – se contornar a igreja pela direita encontra as nossas instalações, a esta hora a sopa ainda não está pronta mas poderá utilizar os duches públicos e aproveitar a distribuição de roupa que as minhas colegas estão a fazer.

Reparou também que pela primeira vez em muito tempo alguém lhe dirigia a palavra olhando-o diretamente nos olhos, levantou-se, agradeceu delicadamente e decidiu seguir as indicações do voluntário. Contornou a igreja e ao aproximar-se do local indicado chegou-lhe o cheiro delicioso de algo a ser confecionado – que bom – pensou – veio mesmo a calhar ter-me perdido por estas bandas.

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Triiimmmmm

Fernanda apagou a televisão, levantou-se vagarosamente e dirigiu-se para a porta – quem será? – pensou, olhou pelo oculo e viu surpreendida que era a sua filha, com o coração acelerado rodou a chave, tirou a tranca, abriu o trinco e por fim puxou a porta para si.

Clara entrou de rompante, não susteve as lágrimas contidas há demasiado tempo deixando-as escorrer abundantemente pela sua face enquanto abraçava a mãe – desculpa – balbuciou no meio do choro convulsivo – andei tempo demais a dar prioridade ao que não interessa.

Aquele abraço congelou a noção de tempo por tempo indeterminado, uma estava emocionada, confortada com a presença da filha, a outra sentia um alivio na consciência pesada, um sentimento de amor imenso invadiu aquele abraço mágico e o amor não se compra com dinheiro. Clara estava a ter noção disso mesmo pela primeira vez, delicadamente fechou a porta com o calcanhar – nunca mais te vou deixar – disse, e assim ficaram mais um pouco…

Quem pudesse ver a realidade na sua totalidade (sem os olhos do corpo), veria um quadro sobejamente emocionante: aquela senhora de alma pura e trajes simples abraçava sem reservas a filha pródiga de vestes soberbas e envolvendo as duas com indiscritível alegria, António, o pai e marido nesta última existência, bem como o companheiro de outras lutas num passado longínquo, pairava a poucos centímetros do chão, envergava uma t-shirt branca com a inscrição “VOLUNTÁRIO” em letras azuis. De olhos cerrados e marejados de lágrimas, agradecia mentalmente ao alto pela oportunidade bem aproveitada.


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