O jardim do hospital


- Acho isto incrível (resmungava José enquanto se vestia), um gajo no hospital e ninguém se digna a visitar-me?! Sr. Enfermeiro (gritou), oh sr. enfermeiro, chame o médico s.f.f. eu quero alta, já me sinto muito melhor e quero ir para casa.

- Calma José, não esteja nervoso, isso não ajuda em nada o seu caso.

José assustou-se, não se tinha apercebido de ninguém a entrar no quarto onde estava internado, virou-se rapidamente… na sua frente encontrava-se um homem que ainda não tinha visto, aparentava ter uns 40 anos, alto, sorriso franco e como todos os outros funcionários já seus conhecidos, também este estava impecavelmente vestido com o que parecia ser uma farda branca, o seu olhar transmitia uma serenidade impressionante.

- O senhor é médico?

- Não, sou seu amigo.

Pronto (pensou José) lá vem estes gajos com conversa da treta, não percebo nada do que se está a passar… estarei louco?!

O José é um homem de posses, ponderado, educado e muito respeitado por todos os que o rodeiam, embora nascido numa família humilde começou a trabalhar muito novo, investiu nos estudos numa época em que uma licenciatura ainda era sinónimo de um bom emprego, subiu a pulso na empresa onde acabou por se tornar director geral.

Agora que estava perto dos 60 anos, de repente tudo deixou de fazer sentido! Andava a sentir-se baralhado.

Num dia de inverno com chuva forte teve um acidente de viação, recorda-se de ter sido transportado para o Hospital de São José onde foi operado de urgência, depois disso só guarda umas lembranças ao estilo de pequenos flashes, até que de há uns dias para cá se sente bem melhor, deu-se conta que foi transferido e está em recuperação num hospital que não conhece.

O seu quarto simples e impecavelmente arrumado não tem qualquer equipamento médico, a vista da sua janela dá para um jardim lindíssimo, a natureza explodiu de cor na paisagem e o sol brilha (pelo que já deverá ser primavera), sente-se bem, mas a cabeça anda confusa!

Todos o tratam muito bem, mas ninguém lhe dá informações sobre o que tem ou onde está.

Há quanto tempo está ali? Porque a família não o vem visitar? Que hospital é este? Estas são questões que todos evitam responder, só o informam que tem de se alimentar como deve ser e descansar sem preocupações para recuperar rapidamente.

Mas recuperar de quê?! Fisicamente sente-se tão bem! Isto preocupa-o e até já colocou a hipótese de estar internado num hospital psiquiátrico… é isso, de certeza que o acidente deve ter afectado a cabeça.

Ainda com estes pensamentos a fervilhar e após uma fracção de segundos, decidiu responder com outra questão:

- Como pode ser meu amigo se eu não o conheço?

- Conhece sim, mas neste momento não se lembra de mim.

Isto foi a gota de água, num ímpeto o pânico invadiu o seu ser, precipitou-se para a porta do quarto passando pelo homem sem que este tenha esboçado o mais pequeno esforço para o impedir, do lado de fora encontrava-se um corredor enorme… pôs-se a correr o máximo que conseguia, sem pensar e sem destino, tinha simplesmente de sair dali.

Passou por muitas portas e algumas pessoas, continuou a correr e decidiu virar na primeira à direita, mas deu de caras novamente com o tal homem misterioso vendo-se obrigado a parar!

Como pode ser isto? (pensou)

Sentia-se tonto e baralhado, olhou para o sujeito, este mantinha-se calmo, com um sorriso dirigiu-lhe a palavra serenamente:

- Vamos conversar para o jardim?

O José acedeu, sentia-se sem forças, decidiu aceitar e seguir para o jardim com o amigo desconhecido, aquele convite para conversar soou-lhe a promessa de esclarecimento.

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- Sabes? Hoje tive um sonho esquisito.

- Então?!

- Sonhei com o meu pai! Vê lá tu o que fui buscar: sonhei com ele feliz da vida a dizer-me que estava muito bem…

O Luís abraçou a mulher e afagou-lhe o cabelo.

- O cérebro tem dessas coisas, conforta-nos a nós próprios.

- Eu sei, eu sei. Ainda por cima faz hoje 6 meses… não me interpretes mal, bem sei que a morte é o fim, tudo acaba aí. Isto são só projecções do impossível, talvez seja aquilo que desejaríamos fosse verdade... mas o meu sonho de hoje foi tão real que até parece que ainda sinto o cheiro das flores que estavam naquele jardim.

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